O número de mulheres responsáveis pelos lares aumentou em Bauru em 12 anos, chegando a quase metade do total. É o que indicam os mais novos dados do Censo Demográfico, divulgados no fim de outubro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O levantamento mostra que a proporção delas desempenhando este papel avançou de 37% em 2010 para 49,1% em 2022, índice que equivale a 68.781 domicílios particulares. Em igual período, a parcela masculina entre os responsáveis pelos lares caiu de 63% para 50,9%, o correspondente a 71.416 moradias.
Líder do Grupo de Pesquisa Gênero, Sexualidade e Sociedades da Unisagrado, a professora e historiadora Lourdes Madalena Gazarini Conde Feitosa atribui esta alteração a fatores como transformações sociais e culturais e maior independência financeira feminina, embora elas continuem recebendo salários menores e tenham menos oportunidades de ocupar cargos de chefia.
"Há uma crescente escolarização feminina. Hoje, elas são 51,5% da população e 57,5% dos matriculados em instituições de ensino superior públicas e privadas, segundo o Censo 2022. Já entre os que estão prestes a se formar, o número sobe para 60%. Isso tem refletido diretamente na inserção delas no mercado de trabalho, favorecendo que assumam mais a chefia familiar", analisa.
A especialista pondera, contudo, que as mulheres ainda recebem, em média, salário 17% menor do que o dos homens, desigualdade que poderá ser combatida com a lei federal sancionada em 2023. A norma determina igualdade salarial entre trabalhadores que desempenham a mesma função em empresas com mais de 100 funcionários, além de estabelecer critérios mais rígidos para evitar o descumprimento da regra.
"Ainda há preconceito acerca das competências e habilidades delas para ocupar cargos de gestão e liderança, bem como em relação à capacidade política, haja vista o baixo número de eleitas para ocupar cadeiras no Executivo e Legislativo no último pleito", frisa.
No Censo, a pessoa responsável pelo domicílio é aquela reconhecida como tal pelos moradores do imóvel. No recorte de cor ou raça, 64,2% das mulheres com esta classificação em Bauru foram autodeclaradas como brancas, 26,1% como pardas e 8% como pretas. Já em relação à faixa etária, a prevalência é daquelas com 40 a 59 anos (37,8%), 60 anos ou mais (31,1%) e 25 a 39 anos (25,6%).
Ainda de acordo com o levantamento, das 140.197 unidades habitacionais recenseadas, 29% eram compostas por pessoa responsável, cônjuge e filho de ambos; 22,4% por casais sem filhos; 14,8% por responsável sem cônjuge com filhos; 6,3% por casais com pelo menos um filho somente do responsável ou do cônjuge; e 27,4% possuíam outras composições. A pesquisa também mostra que havia 79.815 residências habitadas por casais de sexos diferentes e 1.123 por cônjuges do mesmo sexo.
Uma em cada quatro domicílios chefiados por mulheres em Bauru tem a presença de filhos e ausência de cônjuge, ou seja, a responsável pelo lar é mãe solo. Ao todo, são 18.047 residências com esta composição, o equivalente a 26,24% do total liderado por elas.
Esta proporção é significativamente mais alta do que a de lares com as mesmas características, mas comandados por homens. Segundo o Censo 2022, são 2.777 domicílios, apenas 3,89% dos que estão sob responsabilidade de moradores do sexo masculino.
A professora e historiadora Lourdes Conde Feitosa pondera que, mesmo entre as mulheres casadas, a sobrecarga por ainda serem socialmente responsabilizadas pelo trabalho doméstico, incluindo o cuidado com os filhos, permanece como um problema a ser superado. É uma experiência que tende a ser ainda mais desafiadora quando comandam uma família monoparental, tendo em vista a chance aumentada de o pai deixar de suprir as necessidades afetivas e financeiras dos filhos.
"No ano passado, orientei uma pesquisa de mestrado na Unesp de Araraquara em que entrevistamos mães solo de classe média. E elas disseram enfrentar muito preconceito. No mercado de trabalho, há ressalvas em contratá-las pelo receio de que se ausentem mais do que outras mulheres. Na vida particular, há ainda uma ideia enraizada de que uma família monoparental é disfuncional, fruto de julgamentos sobre a capacidade de uma mulher articular sozinha vida pessoal, familiar e profissional. São questões de gênero que precisamos debater enquanto sociedade", completa.
A pedagoga Anaua Carina de Campos Moreira, 51 anos, é uma das moradoras de Bauru a se somar ao grupo de mulheres responsáveis pelos domicílios da cidade entre 2010 e 2022. Há seis anos, ela realiza o sonho de ser mãe de Benjamin Antonio mas, desde o parto, é a única responsável por prover as necessidades materiais e emocionais do menino.
Anaua trabalha oito horas por dia, de segunda a sexta-feira, como chefe do setor de educação para o trânsito e mobilidade da Emdurb e, por vezes, participa de eventos aos fins de semana ou no período noturno. Felizmente, a empresa pública permite que Benjamin acompanhe a mãe no trabalho quando ele não está na escola.
Da mesma forma, a pedagoga é autorizada a levar o filho, que é autista, para atendimento na Sorri Bauru durante o expediente, com posterior compensação de horas. Aos fins de semana, é quando sobra tempo para fazer os passeios que o menino adora.
"Quando tenho compromisso à noite, ele vai comigo e, quando é em fim de semana, pago para uma senhora ficar com ele. Fico sobrecarregada, mas ser mãe é meu sonho. E ele é muito bonzinho, então acaba dando tudo certo. Como o tive com idade avançada, às vezes minha energia acaba, mas, por outro lado, a maturidade traz mais sabedoria para lidar com todas as demandas", pondera.
Anaua Moreira, 51 anos, é mãe solo de Benjamin Antonio, 6 anos