Foi no início da graduação que a fisioterapeuta neurológica Sabrina Lombardi Martinez Breslau, 46 anos, se apaixonou pela equoterapia e pelo cuidado com pessoas com deficiência, área na qual se especializou e atua há 24 anos. Nascida em Araçatuba, formou-se e fundou seu primeiro Centro de Equoterapia na cidade, vendido após ela mudar-se para Bauru, em razão do namoro com o músico bauruense Erik Breslau, hoje seu marido e pai de sua filha, Betina, 13 anos.
Assim como a vida pessoal, a carreira também prosperou. Após diversos trabalhos, incluindo a coordenação do Centro de Equoterapia da Esalq/USP, em Piracicaba, Sabrina implantou, em 2019, o Centro de Equoterapia de Bauru na Sociedade Hípica de Bauru, serviço coordenado por ela ao lado da psicóloga Cristiane dos Reis com apoio da Associação Brasileira do Quarto de Milha (ABQM) e parceiros.
Tendo cavalos como aliados, a fisioterapeuta dedica-se a transformar vidas, ajudando pacientes a superarem limitações físicas e emocionais. Motivada a multiplicar o conhecimento acumulado, escreveu dois livros e um capítulo de um terceiro em parceria com Cristiane, além de ser professora de equoterapia no curso de pós-graduação em fisioterapia neurológica da Faculdade Inspirar em Bauru e Londrina (PR).
Nesta entrevista, Sabrina celebra sua trajetória, fala da importância de sua fé católica e da família e explica como seu trabalho promove qualidade de vida e inclusão. Leia os principais trechos.
Sabrina - Fui fazer fisioterapia nas Faculdades Salesianas de Lins em 1996 e a aula inaugural foi com o fisioterapeuta Fernando Lages Guimarães, que falou sobre hipoterapia (terapia com cavalos) com pessoas com necessidades especiais. E, no primeiro semestre, acompanhei um estudante de terapia ocupacional em um estágio de hidroterapia com pacientes com síndrome de Down. Naquele momento, comecei a compreender o que o paciente neurológico precisava e fui me apaixonando. No segundo ano, porém, decidi voltar para Araçatuba e fui estudar na Unip, no início com resistência do meu pai porque eu recomeçaria o curso, mas prometi que ele só teria orgulho de mim.
Sabrina - Sim. No primeiro ano, fui fazer estágio voluntário na Apae, onde fiquei por bastante tempo, e já tinha certeza de que queria trabalhar com neurologia. Meu TCC foi sobre intervenção precoce no paciente com síndrome de Down e, quando me formei, entrei na pós-graduação em fisioterapia neurológica em Lins. Assim que terminei, fiz o curso básico de equoterapia na Unb, em Brasília, e montei um Centro de Equoterapia em Araçatuba, em 2000. Fiquei seis, sete anos lá e vim para Bauru, porque conheci meu marido, músico bauruense, em um show que a banda dele, a Erik Breslau Band, fez em Araçatuba em 2007. Começamos a namorar e, como ficou difícil conciliar, depois de oito meses, vim para cá.
Sabrina - Continuei administrando o centro em Araçatuba, que tinha 101 pacientes, mas acabei vendendo porque comecei a ter muito paciente domiciliar e também de hidroterapia em uma academia em Bauru. Logo depois, o professor Cláudio Haddad da USP de Piracicaba me convidou para assumir a coordenação do Centro de Equoterapia da Esalq. Topei e ia toda semana lá. Simultaneamente, em Bauru, atendi no haras do Sérgio e da Sandra Toledo por uns seis anos. Nesse meio tempo, também estruturei, a convite, um centro de equoterapia em São Manuel e outro em Bariri.
Sabrina - Quando decidi engravidar, parei de trabalhar em outras cidades. A Betina já tinha nascido quando o haras onde eu atendia foi vendido e passei a atender na Fazenda Santa Rosa, do José e da Roberta Martha, onde iniciei minha parceria com a Cris. Ficamos lá por uns três anos e, então, abri o Centro de Equoterapia na Hípica, convidada pela Renata, presidente do Centro Hípico. A Cris tinha sido mãe e ficou afastada, mas retornou em 2019. Com a pandemia, tivemos um boom de alunos, por serem atendimentos ao ar livre, e continuamos até hoje, com pacientes autistas, deficientes visuais, com paralisia cerebral, hidrocefalia, síndromes diversas. E temos um projeto em que empresas ou pessoas, além da ABQM, nos ajudam a manter atendimentos gratuitos a assistidos pela Wise Madness, Aelesab, Casa da Criança e Lar Escola Santa Luzia para Cegos.
Sabrina - Creio que já tive cerca de mil pacientes e é muito gratificante. Hoje, não imagino minha vida sem a equoterapia. Já recebi paciente que precisava de quatro pessoas para subir no cavalo, tinha dificuldade para se equilibrar sobre o animal e hoje o conduz sozinho. É visível o ganho não apenas físico, mas também em socialização, autonomia, autoestima. Além da reabilitação, temos parceria com o VS Treinamentos, do Vagner Simionato, em Piratininga, onde paratletas treinam para provas de tambor. São pacientes reabilitados por nós e já temos um, o Vilson, com bons resultados em campeonatos.
Sabrina - Eu e o Erik somos da acolhida da Paróquia São Cristóvão e me sinto bem nesse papel, recebendo as pessoas na porta, ouvindo suas dores. Consegui fortalecer ainda mais minha família dentro da Igreja e me tranquiliza estar lá. Minha filha foi coroinha e estamos sempre servindo nos eventos. Outra realização é ser madrinha de crisma da Rafaela e madrinha de crisma de coração da Gabriela, que são gêmeas. A Gabriela tem paralisia cerebral, foi minha paciente de equoterapia desde pequena e ensinei a Rafa a andar a cavalo e ela participou de várias provas de tambor. Quando assumi a responsabilidade de ser madrinha de crisma, me tornei uma pessoa diferente, porque sei que elas se espelham em mim, principalmente quanto à vida cristã.
'Creio que já tive cerca de mil pacientes e é muito gratificante. Não imagino minha vida sem a equoterapia'
'É visível o ganho não apenas físico dos pacientes, mas também em socialização, autonomia, autoestima'
'Consegui fortalecer ainda mais minha família dentro da igreja e me tranquiliza estar lá'