10 de julho de 2026
ESPECIALISTA ALERTA

Crise climática poderá gerar duas pandemias por década

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
IEA/Divulgção
Carlos Nobre é um dos mais renomados cientistas de clima no mundo

Um dos mais renomados cientistas no mundo, o climatologista Carlos Nobre, integrante da equipe internacional que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007, fez um alerta em recente entrevista concedida à TV USP Bauru, órgão da Prefeitura do Campus USP Bauru: se a emergência climática em curso não for revertida, há risco de degradação de todos os biomas tropicais da Terra, como a Amazônia, o que resultará na ocorrência de uma a duas pandemias com proporções semelhantes à da Covid-19 a cada década.

"É o que mostram estudos científicos, devido à perturbação que o aquecimento global provoca nas florestas tropicais. Pela primeira vez na história, em 2024, tivemos uma epidemia de um vírus da Amazônia, o Oropouche. A Fiocruz de Belém já mapeou mais de 30 zoonoses, vírus que contaminam animais e podem ser prejudiciais à saúde humana", elenca.

Cientista no Instituto de Estudos Avançados da USP, Nobre projeta que, sem a adoção de medidas imediatas para reduzir drasticamente os desmatamentos e a emissão de gases do efeito estufa, a temperatura média global continuará aumentando, até tornar a Terra inabitável para todas as espécies que nela vivem. "Há risco de chegarmos ao ecocídio, a sexta extinção das espécies do planeta e a primeira provocada por uma espécie, o homem, já que as outras foram por fenômenos tectônicos, vulcões ou um superasteroide que gerou perturbação em grande escala na atmosfera", descreve à TV USP.

Prognóstico

O especialista revela que o prognóstico no Brasil, se a temperatura média global aumentar em 3 graus até o fim deste século, é que 50% a 70% da Amazônia tornem-se um ecossistema degradado, mais de 50% do Cerrado transforme-se em semiárido, grande parte da Caatinga vire semideserto e o Pantanal desapareça.

Recentemente, Carlos Nobre tornou-se o primeiro integrante brasileiro dos Guardiões Planetários, coletivo internacional independente formado por lideranças comprometidas em ajudar a resolver a urgência da crise climática. À TV USP, ele afirmou que, embora o aumento da frequência e intensidade de eventos extremos como inundações e estiagens seja uma realidade, há quem ainda permaneça cético sobre os resultados futuros da inércia diante dos desafios que se impõem.

Neste sentido, ele faz um paralelo com a crise sanitária da Covid-19, quando cientistas detectaram a presença do novo vírus na China, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou a pandemia e os países agiram para evitar a rápida e letal disseminação da doença, até que fosse possível produzir e distribuir vacinas. "O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) vem dizendo há décadas sobre o risco de o planeta entrar em um ecocídio, mas não estamos tomando atitudes", lamenta.

Entre as medidas para reverter os prejuízos acumulados até agora, o climatologista elenca a adoção de políticas públicas em escala global para zerar a emissão de gases do efeito estufa antes de 2050 a partir da transição para o uso de energias renováveis, a instituição de projetos robustos de restauração florestal, o desenvolvimento de uma nova economia baseada na sociobiodiversidade e o fomento ao consumo e à produção sustentáveis.

"Estudos mostram que é preciso restaurar de seis a sete milhões de quilômetros quadrados de florestas tropicais em todo o planeta, o que garantiria a retirada seis bilhões de toneladas de gás carbônico da atmosfera ao ano por mais de 100 anos. Isso faria a temperatura não passar de 1,5 graus, porque deixar chegar a 2 graus seria muito arriscado. São medidas economicamente viáveis, tecnologias existem, mas é preciso haver vontade das populações e eleger governantes preocupados em vencer essa emergência climática, que é o maior desafio da humanidade", diz. Para assistir à entrevista completa, clique neste link ou veja o vídeo no começo desta matéria.