O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 1,4% no segundo trimestre deste ano em comparação com o primeiro trimestre. O resultado veio acima do projetado pelo mercado, o que foi comemorado pelo governo federal.
Com o resultado, o primeiro semestre fecha com crescimento de 2,9% na comparação com o mesmo período do ano passado, e nos últimos quatro trimestres o PIB cresceu 2,5% também sobre o mesmo período do ano anterior.
Na análise do resultado pelo lado da oferta, o destaque foi o setor secundário da economia, ou seja, a indústria, que cresceu 1,8% no segundo trimestre. Já o setor terciário (comércio e serviços) observou alta de 1%, enquanto o setor primário (agropecuária) teve queda de 2,3%.
Pelo lado da demanda, o consumo das famílias teve alta de 1,3%, os investimentos (formação bruta de capital fixo) cresceram 2,1%, os gastos do governo avançaram 1,3%, as exportações subiram 1,4% e as importações tiveram alta de 7,6%.
Esses resultados devem ser vistos como um filme e não como uma fotografia, e mais que isso, é importante entender o que efetivamente ajudou neste avanço e quais são as perspectivas daqui para frente.
O que tem permitido o bom resultado da economia brasileira é a injeção de liquidez no mercado, provocada pelos elevados gastos do setor público. Isso pode ser confirmado com o volume de gastos no primeiro semestre de 2024: R$ 1,13 trilhão, gerando um déficit primário (receita menos despesas, sem computar os juros da dívida pública) de R$ 68,7 bilhões.
O consumo das famílias, mesmo com juros elevados, tem sido potencializado pela política de transferência de renda e pela elevação do salário mínimo acima da inflação, entre outros fatores.
Crescimento econômico puxado pelo consumo das famílias, sem resposta na mesma velocidade em termos de oferta de bens e serviços, pressiona a inflação, o que exige uma taxa de juros mais alta. Ou seja, uma política fiscal expansionista, como a adotada pelo setor público, requer uma política monetária restritiva. O endividamento público é inevitável.
Adotar este modelo de política econômica não sustenta o crescimento da economia. É como se qualquer um de nós elevasse o padrão de vida às custas de endividamento. Isso gera uma sensação de bem-estar e de riqueza no curto prazo, mas quando a conta chega, o tombo é grande e as consequências são catastróficas.
É um modelo muito parecido com o adotado pela ex-presidente Dilma Rousseff em seu segundo mandato, em que o forte endividamento público gerou dois anos seguidos de recessão. Dilma conseguiu gerar uma queda na economia semelhante à pandemia, sem ter pandemia.
E há ainda um ingrediente preocupante: a tentação do atual governo, à luz deste resultado, de ampliar ainda mais os gastos públicos, imaginando que há garantia de que a economia terá daqui para frente o mesmo bom desempenho, o que não é verdade.
Os operadores de mercado fizeram a leitura correta deste resultado, sabendo do risco que o descontrole das contas públicas traz, e precificaram as incertezas no câmbio, bem como nas apostas de que os juros básicos não só não cairão como há a possibilidade de alta.
Ao não fazer a lição de casa, o governo coloca água no chopp.
Fica o alerta.