09 de julho de 2026
OPINIÃO

O estranho em nós

Por Claudia Zogheib |
| Tempo de leitura: 3 min
A autora é psicóloga clínica pela USC, psicanalista, especialista pela USP, responde pelas páginas @augurihumanamente e @cinemaeartenodivã

As questões fundamentais sobre como nos entendemos em momentos de crise e angústia permitem que possamos estar sobre o olhar do desamparo, um lugar de difícil reconhecimento e que parte de uma experiência subjetiva que deseja nos comunicar algo.

Acessar o sofrimento não é tarefa fácil, e mais do que isto, retrata uma dor não digerida que modifica a rotina de maneira a nos paralisar.

Partindo do pressuposto de que é impossível que um único motivo explique os transtornos mentais, enquanto não reconhecemos todos os lados de nós mesmos e vivemos sem adentrar as questões que nos adoecem, negamos a nossa singularidade e desintegramos o próprio eu, adoecemos.

Aquilo que nos é familiar e, ao mesmo tempo, estranho, se reconhece num lugar que retrata parte de nós mesmos. O estranho em nós parte do retorno de elementos que recalcamos assim como de um modelo de "pensamento mágico" que tenta suprir a existência de um reconhecimento que sugere que o que está dentro deve experimentar a vivência do colapso e o próprio contorno abalado.

Mesmo nas situações adversas que experimentamos na vida cotidiana, será sempre uma narrativa de nós mesmos porque não existe eu me comportar frente a atitude do outro, mas sim me reconhecer na atitude do outro, uma referência que gera inquietude e que além de estranho é também familiar porque encontra similaridade em algo que existe dentro de nós.

Freud quando falou em 1919 do "estranho", dizia ser algo que, por ser rejeitado por nós mesmos, retorna causando espanto e horror, e justamente por isto, enquanto não acessado, continua sob a forma de denegação.

Nas experiências cotidianas, quando conseguimos por meio do acessar-se tratar nossas neuroses e o próprio narcisismo, assumimos o comando do não saber, e reintegramos estes mecanismos em vivências que não nos adoecem. Na verdade, quanto mais nos tornamos conscientes das nossas diferenças, mais podemos tolerar o outro e a nossa presença no outro.

Ser autor da própria vida é uma conquista que se adquire a partir do reconhecimento de que não temos tanta autonomia quanto imaginamos. O que temos é uma possibilidade de nos reconhecer como coabitantes de espaços desconhecidos dentro de nós que, enquanto não acessados, permanecem nos equívocos que construímos para manter a nossa falta de intimidade com nós mesmos.

Os sintomas sempre acusam quando algo não vai bem, sendo uma ferramenta tão necessária quanto fundamental para encontrarmos neste incômodo uma possibilidade de reintegração que será capaz de reestruturar nossas partes cindidas.

Para desbravar um mundo de incompreensões acerca da saúde mental precisamos compreender o que acontece quando um momento de angústia torna-se uma realidade, entendendo que todas as situações que enfrentamos serão uma meio de compreensão à medida que pudermos entender nas atitudes dos outros nossas próprias atitudes, e nas próprias atitudes os outros, porque não há separação no campo da saúde mental, e penso eu, em qualquer modelo de sociedade que deseja considerar o outro.

Na mente, tudo nos é familiar porque reconhecemos, e estranho porque não acessamos.

Estranho é o nome de tudo que permanece secreto e oculto, mas veio à luz nos sinalizando o quanto não somos donos de nós mesmos.

Música 'Ânima', com Milton Nascimento.