"A maior atração de uma cidade é a qualidade de vida dos seus moradores". Arq. Urb. Jaime Lerner
A calçada é o espaço público contínuo e elevado reservado aos pedestres, deve proporcionar confiança e segurança aos caminhantes, devendo possuir largura mínima de 2,50m, dividida em três partes; 0,70m para serviços (postes de iluminação e energia elétrica, sinalização vertical de trânsito, rebaixo para acesso do veículo ao lote, lixeiras, arborização, etc), mínimo de 1,20m (livre de obstáculos) para os pedestres caminharem e os 0,60m restantes para dar acesso ao lote, conforme previsto na legislação de acessibilidade, a NBR 9050/2020. O leito carroçável fica destinado aos veículos, separando a circulação entre os espaços reservados aos carros e aos pedestres.
No entanto, quando há grande tráfego de veículos e pedestres, gerando conflitos entre estes, com o leito carroçável sobrecarregado de automóveis e calçadas saturadas por pedestres circulando, com desconforto e risco de acidentes, torna-se necessário medidas que possam garantir a segurança das pessoas.
São soluções o alargamento da calçada e o estreitamento do leito carroçável, ou vice-versa, porém o espaço da rua como um todo é o mesmo, sendo impossível adotar as duas medidas simultaneamente. Cabe escolher uma das alternativas: geralmente prevalece o alargamento da via carroçável em detrimento do pedestre, que fica com a calçada ainda mais estreita.
Algumas cidades resolveram esta questão urbana com a criação da rua de pedestre, um conceito que reserva ao cidadão o protagonismo no uso exclusivo da via, sem a presença de carros, prevalecendo a mobilidade ativa e sustentável.
Geralmente construídas em centros comerciais e serviços, onde a frequência de pessoas circulando é elevada, torna-se necessária a adequação do piso para o novo uso, com a inclusão de mobiliário urbano como bancos de estar e descanso, floreiras, quiosques comerciais ou de serviços, luminárias funcionais e decorativas, arborização adequada ao tipo de uso, desenho de piso exclusivo, entre outros confortos para a população.
Em 19/05/1972 o arq. urb. Jaime Lerner, então prefeito de Curitiba, em atenção ao Plano Diretor da capital paranaense decidiu iniciar e executar as obras do calçadão da rua XV de Novembro, também chamada de rua das Flores, agiu com estratégia e precisão pois os comerciantes ali estabelecidos não desejavam a transformação da via com receio de impactar negativamente em suas atividades. Uma imensa polêmica à época.
Com receio da obra ser embargada, utilizou de plano bem elaborado e articulado - executar a obra em pouco tempo. Aproveitou-se de final de semana, e numa sexta-feira ao fim do horário comercial, as 18:00h, fechou a principal rua de comércio, colocou máquinas e operários no canteiro e iniciou as obras do calçadão.
As obras duraram apenas 5 dias em toda sua extensão (800,00m de comprimento), isto para uma obra nova, não era apenas reforma. A agilidade na execução da construção "desarmou" os comerciantes que já estavam preparando abaixo assinado para paralisar a obra.
Houve grande aceitação pela população com a nova obra e dois a três dias após, já refletia na melhora das compras. Os comerciantes abandonaram o abaixo assinado e foram se dedicar a clientela que aumentou com os novos pedestres.
Da polêmica inicial aos dias de hoje, a rua de pedestres ou o calçadão de Curitiba já tem 52 anos e sua aceitação é unanimidade para comerciantes, trabalhadores do comércio e consumidores. Que conta ainda com um emblemático bondinho como lembrança deste modal de transporte.
Em Bauru, inicialmente não foi diferente quando da implantação do calçadão, pois acreditava-se que iria "travar" o trânsito no centro da cidade. Não foi o que aconteceu, o calçadão se viabilizou e atualmente necessita passar por uma reformulação. Para reformar houve até mesmo concurso de ideias de projeto, com vencedor escolhido pela população - infelizmente desprezado pelo poder público.
O calçadão é como um shopping a céu aberto, é espaço empreendedor de negócios, democrático e acessível para toda a população, para compras em suas lojas e lazer nos bares, lanchonetes e cafés, lugar para conversar, passear e descontrair, que valoriza as pessoas. No caso, de Bauru até "criou-se novo verbo - batistar".
Ainda, a despeito de Curitiba com seu emblemático bondinho, é possível restaurar e colocar no calçadão de Bauru um dos muitos vagões de trens, que se encontram abandonados no pátio ferroviário, como ponto de informações, biblioteca ramal, recreação para crianças, café, sorveteria ou outras utilidades.
No calçadão, ou rua de pedestres, a prioridade é a qualidade do espaço proporcionada ao cidadão que alimenta e dá vida ao comércio, gerando empregos, salários e renda, inclusive impostos. Todos ganham.
Por sua importância social e econômica, deve ser tratado com um olhar muito especial para não vermos mais salões vazios ou mudando para outro local.