Pelos percursos da vida, o bauruense Walter Bozzini Moura, de 53 anos, se apaixonou pela corrida. Ao mudar sua trajetória, passou a disputar maratonas e a ajudar quem se propõe a alcançar o ápice do próprio potencial em provas de rua, no triatlo e no ciclismo. Com foco na evolução e excelência, entre abril e maio deste ano, participou de uma imersão profissional na Home of Champions (Casa dos Campeões), na cidade de Iten, no Quênia.
Treinou com nomes como Abel Kirui, campeão da Maratona de Berlin em 2009, Nikolas Kosgei, que levou a Maratona de São Paulo 2024, e Timothy Kiplagat, primeiro lugar da São Silvestre 2023. Em suas palavras, foi muito mais do que uma pós-graduação em corrida. Na África, se inteirou de aspectos como a alimentação, rotina e foco dos vencedores.
Na infância, foi obeso e, por intermédio da modalidade, remodelou o próprio corpo. Também pela corrida, abriu mão de uma carreira consolidada como engenheiro químico em uma multinacional de São Paulo. Voltou para Bauru, fez educação física na FIB, e tornou-se um dos preparadores físicos mais qualificados na cidade. Em meio às passadas, um novo caminho também no amor: a modalidade lhe trouxe Juliana Cristina D'Angelo, com quem se casou e firmou parceria profissional em assessoria esportiva. Hoje eles têm uma equipe com 200 corredores.
Entre lapidar um aluno e outro, Walter fez nove provas de 42 quilômetros e 195 metros, e coleciona participações nas Majors (auge das corridas de rua) da Abbott (organizadora), como é o caso da de Boston (EUA), a principal delas. Também correu em Buenos Aires (Argentina), duas vezes em Chicago (EUA), duas em Berlin (Alemanha), Londres (Inglaterra) e Nova York (EUA), onde conseguiu seu "RP" (recorde pessoal) de 2 horas, 59 minutos e 15 segundos, em 2017.
Sua próxima competição internacional será em Tóquio (Japão), em março de 2025. Quando completar a prova do outro lado do mundo, além da medalha da própria corrida, receberá a famosa mandala das "Six Majors", o item mais cobiçado pelos corredores do mundo todo. E depois de tudo isso, deseja encarar outra meta, a mais importante daqui em diante: ser pai. A seguir, os principais trechos da entrevista:
JC - A corrida mudou sua vida?
Walter - Tive uma infância que não foi muito esportiva. Era obeso e cheguei a pesar 110 quilos. Hoje tenho 68. Fui picado pelo "bichinho" da corrida e passei a correr sério em 1996, em São Paulo. Morava perto do Ibirapuera. Tinha TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) e a corrida foi fundamental para eu superá-lo. E também foi a corrida, que de certa forma, me trouxe a Juliana. A conheci em 2023 por meio de um amigo em comum que corria também, o Eduardo Volpe.
JC - Por que trocou a engenharia pela educação física?
Walter - Não tive decepção com a engenharia, mas resolvi mudar de área. Então deixei São Paulo, onde trabalhava e treinava de forma semiprofissional, e voltei a Bauru. Depois da minha segunda faculdade, fiz uma parceria com o amigo Vitor Carrara, que durou três anos, período em que realizamos assessoria com alunos corredores. Depois, passei a tocar sozinho até a Juliana entrar como parceira. Me sinto realizado hoje.
JC - Como foi parar no Quênia?
Walter - Fui com um grupo de brasileiros que partiu de São Paulo para um "camp", na cidade de Iten. É um local que constrói vencedores. Foi muito mais que uma pós-graduação em corrida.
JC - O que chamou atenção no país?
Walter - Em Iten, pude ver que a cidade é agrária, com muita criação de animais e subdesenvolvida em saneamento básico. É uma terra que forma campeões. Lá pude treinar com os melhores do mundo. E é muita gente que pratica corrida.
JC - O que treinou e aprendeu?
Walter - Corri junto com eles e éramos guiados por treinadores e ditadores de ritmo. Foi um conhecimento rico em perspectivas, em pisos diferentes, variações de altimetrias, que foram até 2.400 metros de altitude. Nos 15 dias, percorri 140 quilômetros. Me chamou a atenção o quanto os quenianos são comprometidos, concentrados, além da beleza da corrida, as passadas eficientes com economia de energia. Eles treinam seis dias por semana, pausam apenas aos domingos. Também acompanhei a dieta deles. Os melhores do mundo basicamente se alimentam de arroz, feijão, lentilhas, com banana no prato, e carne. São poucas opções de frutas no país e eles comem também melancia e abacaxi, caldo e pasta de amendoim. Outras opções são uma massa semelhante a pão sírio e mingau.
JC - Encontrou famosos por lá?
Walter - Sim, consegui trocar experiências e treinar com os quenianos Abel Kirui, campeão da Maratona de Berlin em 2009, Nikolas Kosgei, campeão de 2024 da Maratona de São Paulo, e Timothy Kiplagat, campeão da São Silvestre 2023.
JC - E qual o seu próximo objetivo?
Walter - Queremos ser pais, apesar do quão assustador isso pode soar, apesar da nossa idade (eu 53 e a Juliana 43) para os estereótipos. Creio que todo mundo tem o seu momento. E está chegando o nosso.