Movidos pela empatia e pela solidariedade, alguns bauruenses seguiram longa viagem para auxiliar as vítimas da tragédia do Rio Grande do Sul, devastado por temporais e enchentes, que mataram ao menos 163 pessoas e deixaram outras 72 desaparecidas. Estarrecedor, o cenário de guerra chocou os voluntários da Sem Limites, que tentam fortalecer os sulistas diante da perda de quase ou de literalmente tudo o construído durante a vida.
Embora de outro canto do País, com o passar dos dias, agora, os próprios socorristas admitem não só cansaço, como também impactos psicológicos e emocionais. "O moral da equipe às vezes cai e vem o choro e a angústia. Mas tentamos não demonstrar esse nervosismo para as vítimas. Uma coisa é ver pela televisão e outra presenciar", conta Sandro Bussola, que deixou Bauru em 8 de maio, em uma primeira incursão.
"Uma tragédia total" foi o que ele encontrou, em suas próprias palavras, com seu grupo, formado por 10 pessoas, incluindo enfermeiros, psicólogos, cozinheiros e missionários ligados a igrejas evangélicas da Sem Limites. Alguns voluntários retornaram a Bauru no dia 13 para coletar mais doações e levá-las a Porto Alegre (RS), mas somente quatro pessoas foram na segunda incursão.
"Nós estamos há mais de duas semanas aqui. Ainda são muitas casas debaixo d'água, não dá para recuperar nada", conta. Ele aponta ainda outro desafio: as baixas temperaturas. Na noite de segunda-feira (21), os termômetros marcaram 2° graus. "É difícil se adaptar porque o frio aqui é muito maior comparado com Bauru. Além disso, muitas doações de roupas não se adaptam à realidade atual. A demanda agora é por cobertores e roupas de frio", diz.
De acordo com Sandro, dois relatos o marcaram mais. O primeiro foi o de uma senhora que vendia semijoias em Porto Alegre. No momento em que precisou abandonar a carga, tentou salvar sua única fonte de renda colocando em cima de um guarda-roupa. Quando retornou à casa, a água ainda estava na altura do pescoço e ela não encontrou os objetos, que foram arrastados pela correnteza.
"Ela entrou em desespero. Nós prometemos que faríamos uma vaquinha para ajudá-la a se reerguer, mas foi difícil acalmá-la", afirma. Sandro também presenciou uma cena de solidariedade emocionante. Uma senhora ficou cinco dias ilhada no telhado de sua casa com seus cachorros de estimação.
Por conta da exposição prolongada à umidade, seu pé desenvolveu um ferimento. Ao ser resgatada, porém, foi direto para um abrigo que trata animais afetados pela enchente.
A voluntária Aline Cristina da Silva Ribeiro, integrante do grupo que foi ao RS com Sandro, também relatou as noites de terror vividas por uma mulher e suas filhas pequenas, acolhida pelo pessoal de Bauru. "A água começou a subir de uma vez e, lá em Eldorado, a correnteza foi muito forte. Maria Eduarda estava com três crianças, uma de sete anos, uma bebê de alguns meses e outra pequena de três anos. Ela pegou o colchão inflável, encheu-o e colocou as filhas e algumas coisas", diz.
Levada pela correnteza, Maria Eduarda acabou ilhada em um prédio de dez andares, mas a situação piorou quando ela conseguiu entrar no local. "Ficou por quatro dias e quatro noites em um verdadeiro inferno. Não tinham o que beber ou comer. As crianças faziam as necessidades ali mesmo. Homens que estavam lá dentro começaram a beber, quebrar tudo, gritar e agredir as mulheres. Foi um verdadeiro terror."
Ela ficou presa por dias porque o resgate, impedido pela correnteza, não conseguia acessar o local. A situação mudou quando o socorro veio por meio de motos aquáticas. "A polícia teve que algemar os homens lá porque a situação estava terrível. Duas filhas de Maria estavam desnutridas por falta de comida e água. Agora, Maria Eduarda está em Canoas, na casa do tio dela, tomando remédios por tudo que viveu naquele prédio. Foi um verdadeiro inferno".