08 de julho de 2026
SEGURANÇA

Cabeça molhada ajuda a proteger o corpo de raios


| Tempo de leitura: 3 min

Boas notícias para quem morre de medo de ser atingido por um raio durante uma tempestade: estar com a cabeça molhada da água da chuva pode aumentar a sua chance de sobrevivência em até 90%.

Esta é a conclusão de uma equipe de cientistas que construiu cabeças humanas falsas, eletrocutou-as com poderosos raios elétricos e mediu os resultados. As cabeças falsas que estavam molhadas apresentavam significativamente menos danos e menor exposição interna à corrente elétrica.

Os resultados sugerem que ficar encharcado pode melhorar muito suas chances em uma tempestade com raios - embora sua melhor aposta seja não sair em uma, é claro.

"As nossas experiências com falsas cabeças humanas fornecem provas práticas do efeito teoricamente postulado de que a pele molhada pela chuva pode ter melhor comportamento protetor contra raios do que a seca", diz o autor do estudo, o engenheiro René Machts, da Universidade de Tecnologia de Ilmenau, na Alemanha, em um comunicado. "Se você estiver ao ar livre e não houver abrigo, a pele molhada é melhor do que a pele seca porque a película de água é como uma 'revestimento protetor'", completa René Machts.

Mas é claro: os relâmpagos não são um fenômeno com que se possa brincar. Podem fornecer correntes superiores a 200 mil amperes - muito superiores à potência necessária para matar um ser humano.

Embora a análise teórica sugira que a pele molhada pode reduzir a exposição do corpo e pesquisas apontem que animais com pele molhada têm maior taxa de sobrevivência quando expostos a raios, estudos experimentais com animais não haviam examinado a variável da pele humana molhada. Também não havia pesquisas com caráter mais "prático" sobre raios em humanos.

Machts e colegas procuraram preencher esta lacuna na compreensão de como a umidade da superfície pode mudar a forma como o raio viaja pela cabeça humana.

Eles construíram duas cabeças humanas, projetadas para imitar as propriedades de condutividade elétrica de cabeças reais. Modeladas com base em dados de tomografia computadorizada, cada uma tinha couro cabeludo, crânio e volume de tecido dentro do crânio. Os materiais foram cuidadosamente escolhidos para terem propriedades semelhantes às do tecido humano: cloreto de sódio, água, grafite e agarose.

Em seguida, foram colocados eletrodos nas cabeças. A equipe manteve uma cabeça seca, borrifou a outra com água de chuva artificial e explodiu ambas com a corrente máxima disponível em seu gerador de pulsos de 42 mil amperes (a maioria dos relâmpagos tem corrente de cerca de 30 mil amperes).

Molhado, chance de sobrevivência seria de 70% a 90%

Os resultados foram impressionantes. A cabeça molhada teve menos “lesões” e efeitos menos graves do que a seca. O conjunto de eletrodos também mediu as correntes por dentro e pela superfície das duas cabeças. Quando um raio atinge uma pessoa, ela pode experimentar algo chamado de “flashover de superfície”.

“É como um caminho de descarga ao longo da camada externa causado por uma diferença de alta tensão entre o ponto de entrada e o ponto de saída da corrente através do corpo. No caso de um flashover de superfície, a maior parte da corrente do raio viaja no canal fora do corpo humano e apenas alguns amperes nos tecidos humanos, conforme demonstrado por estudos teóricos e por experimentos fantasmas”, explicaram os pesquisadores.

Na prática, significa que menos corrente entrou na cabeça úmida: a energia que entrou na cavidade cerebral foi 32,5% menor na cabeça molhada do que na seca.

Esta exposição reduzida do cérebro, combinada com menos lesões físicas, poderia aumentar as probabilidades de sobrevivência de uma pessoa molhada, em 70% a 90%, disseram os pesquisadores.

A maior parte da corrente elétrica - entre 92 e 97% - viajou através da superfície externa de ambas as cabeças 3D, mas a equipe encontrou diferenças reais na quantidade de corrente que penetrou nas camadas. Embora uma quantidade maior de carga tenha chegado ao couro cabeludo molhado, a camada cerebral absorveu uma corrente elétrica média 13% menor e 33% menos energia em comparação com a cabeça seca.

As limitações do estudo incluem o fato de o crânio não estar coberto de cabelo ou outros acessórios para a cabeça, e que relâmpagos reais produziriam amplitudes maiores. No entanto, os resultados são intrigantes e uma base para futuras pesquisas.