11 de julho de 2026
ENTREVISTA DA SEMANA

Entrevista com o presidente fundador da Sechorbs Francisco Pereira de Andrade

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Tisa Moraes
Francisco Pereira de Andrade é fundador do Sechorbs, sindicato que lidera há mais de 3 décadas

A ARTE DE SERVIR

Aos 82 anos, Francisco Pereira de Andrade, além de garçom e maître aposentado, é o presidente fundador do Sindicato dos Empregados no Comércio Hoteleiro, Restaurantes e Bares de Bauru e Região (Sechorbs) e vice-presidente da Federação que representa a categoria no Estado. Com uma trajetória de desafios e conquistas, dedicou a vida à arte de servir bem, seja atendendo mesas ou preparando pratos especiais nos estabelecimentos em que trabalhou, como o Paiol e a Vila Milano, ou comandando o restaurante da sede social do Bauru Tênis Clube e dos trens da Noroeste do Brasil.

Conhecido como Chiquinho, nasceu na pequena Grão Mogol (MG) e mostrou sua habilidade em se comunicar ainda na infância, quando fazia vendas com o pai. Em busca de oportunidades, migrou para terras paulistas ainda jovem e estabeleceu-se em Bauru, onde consolidou a carreira. Francisco foi, inclusive, pioneiro ao incluir mulheres na equipe de garçons de um restaurante da cidade.

Ao encerrar a trajetória profissional, foi servir, então, sua própria categoria, com a fundação do sindicato em que permanece, até hoje, como presidente, tendo a ajuda dos filhos Daniel, diretor de marketing, e Davi, advogado, frutos de seu casamento com Maria Aparecida. Nesta entrevista, ele volta ao passado para relembrar momentos importantes de uma história construída com coragem e persistência e revela como, aos 82 anos, mantém-se ativo e comprometido com a defesa dos direitos dos trabalhadores.

JC - O senhor sempre teve facilidade para se comunicar?

Francisco - Sim. Minha família tinha um pequeno sítio e plantávamos arroz, feijão, milho. Como não gostava de pegar na enxada, aos 12 anos, já viajava com meu pai a cavalo, para vender o que a gente produzia, junto com burros cargueiros. Fazíamos farinha, requeijão, rapadura, toucinho e, como eu era muito ativo, vendia com facilidade. Um prefeito até falava para meu pai me deixar com ele para eu estudar, porque me tornaria presidente da República.

JC - E quando e por qual motivo veio morar em Bauru?

Francisco - Vim para o Estado de São Paulo com 17 anos em busca de oportunidades. Trabalhei na roça, fui zelador de fazenda, mas resolvi ir para a Capital. Lá, fui trabalhar como copeiro em um restaurante. Via os garçons de paletó, sapato engraxado, gravata borboleta e decidi que seria um deles. Comecei com uns 19 anos e foi um sucesso, porque tinha facilidade para me comunicar, tinha sotaque - e os paulistas gostam de mineiro - e era miudinho. Com 20 e poucos anos, fui trabalhar em uma fazenda administrada por meu irmão, em Iacanga, e entendi que aquilo não era mesmo para mim. Foi quando me mudei para Bauru.

JC - Aqui, foi fazer o que?

Francisco - Trabalhar como garçom. Acabei me tornando maître do restaurante da sede do BTC no Centro, frequentada pela alta sociedade. O restaurante vendia fiado e assumi a responsabilidade de cobrar os sócios, o que ajudou nas finanças do clube. Eu tinha uma boa relação com os frequentadores e foi lá que passaram a me chamar de Chiquinho. Fiquei 20 anos e saí para inaugurar o restaurante Paiol, na Vila Cardia, onde incluí pratos especiais no cardápio, como o filé à Paiol, o filé à cubana, que a clientela adorou. Como meu nome já estava ficando conhecido, um ano depois, fui convidado para inaugurar e montar o cardápio da cantina Vila Milano, em frente ao Vitória Régia.

JC - E como foi a experiência de trabalhar em restaurante de trem?

Francisco - Foi na década de 1960, antes de ir para o BTC. Fui trabalhar na NOB, como ajudante no restaurante de trem de passageiros, mas logo assumi como garçom e cheguei à gerência. E fui escolhido para as viagens de inspeção dos funcionários da empresa, como engenheiros e advogados, na Bolívia, Paraguai e Argentina. Aprendi muito. É uma experiência diferente trabalhar em um restaurante em movimento, demanda habilidade. Mas fiquei só por cerca de três anos.

JC - O senhor foi responsável por incluir mulheres na equipe de garçons, pela primeira vez, em um restaurante de Bauru?

Francisco - Sim, no restaurante Ki Delícia, no Centro, no começo da década de 1970. O dono fez esta proposta, que eu abracei, mas havia muito preconceito, na época, tanto que metade dos garçons pediu a conta. Contratamos mulheres e deu muito certo, porque elas eram eficientes, educadas e com vontade de aprender. E hoje 75% dos trabalhadores do setor abrangido pelo sindicato são mulheres. Depois de lá, fui montar o restaurante do Hotel Fenícia, no Centro, onde fiz pratos especiais franceses, que também foram sucesso. De lá, fui assumir o sindicato.

JC - Por que decidiu fundar um sindicato?

Francisco - Via que a maioria da categoria não tinha direitos, registro, não recebia a taxa de serviço paga pelos clientes. Comecei a lutar e entendi que, em um sindicato, poderia ampliar o alcance dos direitos que reivindicava. Então, fui na federação, em São Paulo, pedir apoio e orientação. Em 1985, fundei a Associação dos Empregados em Hotéis, Restaurantes e Bares e, 1988, com a nova Constituição, a transformei em sindicato. Desde então, sou o presidente, reeleito novamente, com mandato por mais quatro anos. É um sindicato sério, que defende o trabalhador e tem boa relação com o empresário que respeita seus empregados. Hoje, representamos 4 mil trabalhadores com registro em carteira e, se somarmos os informais, o número chega a 6 mil.

JC - Como faz para manter esta vitalidade aos 82 anos?

Francisco - Sempre joguei bola, mas hoje faço caminhadas diárias, musculação e tenho uma boa alimentação. E não fico encucando com as coisas, sou muito positivo, tenho fé, coragem e não deixo a peteca cair. Passei por muita luta no sindicato, mas, mesmo nos momentos difíceis, aguentei firme, trabalhei e segui em frente. Para atrair filiados, por exemplo, abrimos um salão de beleza com preços simbólicos. Temos um campeonato de futebol, eventos no mês da mulher e do trabalhador, no Outubro Rosa e Novembro Azul, ouvindo sempre sugestões dos sócios e da diretoria.