09 de julho de 2026
ENTREVISTA

Carlinhos Oliveira; Vitorioso com a raquete nas mãos

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Bruno Freitas/BTC
Carlinhos Oliveira

Filho de um serralheiro e uma dona de casa e sobrinho de dois tenistas, Carlos Eduardo Oliveira conheceu cedo o esporte e passou a ter mais intimidade com a raquete aos 9 anos, quando ainda era pegador de bolas no Bauru Tênis Clube (BTC). Apesar da precocidade, seu caminho dentro da modalidade não foi fácil.

Mesmo assim, hoje, aos 47 anos, Carlinhos Oliveira comemora uma trajetória bem-sucedida dentro das quadras, que desafia os efeitos da passagem do tempo e não tem data para ser encerrada. Desde 2022, o bauruense joga pelo BTC na categoria Seniors da Federação Internacional de Tênis (ITF) e, de lá para cá, já foi duas vezes medalhista de bronze em Mundiais.

No final do ano passado, sagrou-se campeão Sul-Americano ITF, o que o alçou à segunda posição no ranking mundial da federação entre jogadores 45 , permanecendo como número 1 do Brasil em sua categoria. Antes, dos 31 aos 35 anos, também havia disputado o circuito da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP).

Casado com Daniele e pai de Vitor, 18 anos, Davi, 14 anos, José, 12 anos, Maria Eduarda, 7 anos, Isabely, 3 anos, e Catarina, 7 meses, Carlinhos é professor e treinador de tênis no BTC. Além disso, também atua em projetos sociais do clube, empenado para que crianças como a que ele foi tenham a oportunidade de encontrar no esporte uma ferramenta de transformação. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista.

JC - Você jogou no circuito da ATP. Como foi essa experiência?

Carlos - Joguei dos 31 aos 35 anos, de 2008 a 2012, e cheguei à posição 470 do ranking, aos 32 anos. Quando o atleta começa a jogar no profissional, entra na categoria Futures, que é um degrau para a principal e conta pontos no ranking. Eu jogava, por ano, uns 15 torneios no Brasil. Naquela época, havia vários, que deixaram de existir depois. E aproveitei a oportunidade. Em 2008, por exemplo, fui campeão do torneio internacional Pousada do Rio Quente. Deslanchei e, entre 2009 e 2010, fui morar em São Paulo, onde havia maior estrutura e facilidade para deslocamento.

JC - O que motivou a saída do profissional?

Carlos - Não tinha patrocínio e precisava fazer torneios fora do circuito da ATP a fim de ganhar dinheiro para jogar o profissional e comecei a ter lesões. Então, parei e fui dar aulas. Com 45 anos, alguns amigos e alunos que estavam no Seniors me estimularam e se mobilizaram para custear as viagens para eu disputar os mundiais nesta categoria. E já são dois anos que chego à semifinal, em Portugal e na Turquia, competindo com atletas que, em sua maioria, migrou da ATP direto pra ITF, com rotina de treinos e toda estrutura que tinham antes.

JC - E, agora, você tornou-se o segundo melhor do mundo na categoria.

Carlos - Foi fruto de muito trabalho porque, infelizmente, o Brasil não tem o torneio Sul-Americano ITF, de 1.000 pontos, ou seja, a pontuação máxima. Ele ocorre em outros países da América Latina, a Europa também tem torneios de 1.000 pontos. Então, para buscar uma boa colocação, é preciso viajar. O que me ajudou é que, no Brasil, temos três torneios dos Seniors de 700 pontos, de que participo, além do Mundial. No ano passado, joguei também o Sul-Americano ITF na Bolívia e fui campeão, o que me fez atingir esta posição no ranking.

JC - Como surgiu o interesse pelo tênis?

Carlos - Meu tio, Edvaldo Oliveira, chegou à posição 120 no ranking da ATP e morou na Alemanha, e o irmão dele, Eduardo, treinava no BTC e acabou me levando para ser pegador de bola no clube. Eu tinha 9 anos e entregava o dinheiro que ganhava à minha mãe. Pegava bolas para o professor Claudio Sacomandi e, nas horas vagas, ele começou a me ensinar a jogar. Eu também batia bola com tábua de carne em um paredão na rua de casa. Aos 14 anos, já estava indo bem e fui ser auxiliar de professor da Márcia Cury, na Escola Saque. Depois, fui auxiliar do técnico Alexandre Alcântara, em São José do Rio Preto. Ajudava no treino e participava dos torneios regionais juvenis com a molecada. Fiquei do fim dos 14 até 20 anos lá, mas resolvi voltar para Bauru.

JC - E foi trabalhar com o que?

Carlos - Meu pai tinha uma serralheria e fui trabalhar com ele. Fiquei por uns quatro, cinco anos e foi um período importante para eu entender que, mesmo diante de dificuldades, meu caminho era o tênis. Quando meu tio voltou da Alemanha, montou um treinamento em Rio Preto também para atletas da ATP. Fui para lá e, com 31 anos, comecei a participar dos torneios profissionais, a ganhar no Futures e fui para um nível mais alto, o Challenger. Mas tive condromalácia no joelho e lesão no quadril. Com 35 anos, sem condições de parar e fazer uma recuperação adequada, em um esporte que demanda muito o físico, não deu para continuar.

JC - Foi quando passou a atuar como professor e treinador?

Carlos - Sim. Na ATP, meu objetivo era ganhar experiência estando próximo dos treinadores. Hoje, no BTC, tenho alunos de todas as idades. Além das aulas aos associados, temos o Projeto Integração Tênis (PIT), que existe há 11 anos e oferece aulas de tênis a 60 crianças da escola municipal Crescer. Outro é o Tênis do Futuro, que foi criado no ano passado e une associados e crianças da escola, totalizando 70 pessoas. Também em 2023, montei um grupo de garotos de 10 a 12 anos, sócios com condições de competir na região. E temos mais dois meninos, de 14 e 15 anos, que estão passando duas semanas no Centro de Treinamento de São Paulo.

JC - Nas horas vagas, o que gosta de fazer com a família?

Carlos - Como fico a maior parte do tempo no clube, sempre trago os quatro filhos mais velhos para cá. Eles estão aprendendo a jogar tênis e o Vitor e o Davi já começaram a participar de torneios. No clube, eles estão seguros, longe de coisas erradas e praticando esporte, que ensina, desde muito cedo, sobre a necessidade de ter disciplina dentro e fora de quadra, em tudo o que se faz na vida.