09 de julho de 2026
ENTREVISTA

Entrevista da Semana com Hilário Nunes da Silva; ele ajuda a transformar vidas

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Guilherme Matos
Hilário Nunes da Silva

Guardião da solidariedade

Após 30 anos de serviços prestados como policial militar, Hilário Nunes da Silva aposentou a farda, mas não o espírito de ser útil à sociedade. Ao conhecer um projeto que distribuía cestas básicas, há pouco mais de dez anos, descobriu sua nova vocação: transformar vidas por meio do amor e da solidariedade.

O PM da reserva já era casado há muitos anos com Márcia Bibiana e tinha quatro filhos, três deles por meio da adoção, quando soube da existência do programa Família Acolhedora, que oferece lar provisório a crianças e adolescentes afastados do convívio familiar por medida judicial. Rapidamente, interessou-se pelo projeto e, de lá para cá, ele e sua esposa foram pais temporários de 23 filhos.

A mais recente delas, Eloá, acabou sendo adotada em definitivo pelo casal, assim como já havia ocorrido com Hilário Filho, 29 anos, Giovanni, 27 anos e Bárbara, 18 anos. O policial aposentado é pai, ainda, de Drielly, 36 anos.

Nascido em Bauru, Hilário é espírita, palestrante espiritualista e motivacional e voluntário em um grupo que oferece alimento a pessoas em situação de rua. E, por conta de sua barba e cabelos brancos, transforma-se em Papai Noel todo fim de ano, levando alegria às crianças.

Nesta entrevista, ele relembra sua trajetória na PM, fala da satisfação em ser voluntário e como ter assumido o compromisso de fazer a diferença na vida das pessoas também o transformou. Leia, abaixo, os principais trechos.

JC - O senhor sempre morou em Bauru?

Hilário - Sim, exceto quando me formei como soldado. Quando eu tinha 20 e poucos anos, meu irmão já era oficial da PM e me motivou a seguir na carreira. Passei nas provas, fiz o curso de formação em Sorocaba e me formei em fevereiro de 1983. Fui trabalhar em São Paulo e fiquei lá por pouco tempo, até surgir uma vaga em Bauru, porque queria ficar perto da família. Em 1988, já tinha minha primeira filha e conheci minha esposa, que foi da primeira turma de policiais femininas de Bauru. Estamos casados há 33 anos.

JC - Trabalhou em que funções na PM?

Hilário - Fui policial de trânsito, trabalhei no setor administrativo, como guarda de penitenciária, fui motorista de comandante e fiquei 12 anos no Centro de Operações da Polícia Militar (Copom). E me aposentei como terceiro sargento, em 2012, com 30 anos de serviço. Depois, fui fazer alguns 'bicos' para complementar a renda e, nesse ínterim, conheci o doutor Enilson Komono, que tinha um projeto de entrega diária de cestas básicas, do qual fui participar. Foi ali que descobri minha vocação para fazer o bem ao próximo.

JC - Nessa época, já havia adotado alguns de seus filhos, não?

Hilário - Sim. Minha esposa e eu tivemos dificuldades em ter filhos biológicos. Depois do terceiro aborto, decidimos adotar e ela queria pelo menos três, que era o número de filhos perdidos. Mas, depois, ainda viria a Eloá, por meio da Família Acolhedora, programa que conhecemos pelo Jornal da Cidade. Vimos a reportagem e achei que seria legal ajudar as crianças. Começamos em 2015 e, de lá para cá, foram 23 acolhimentos.

JC - Como foi essa experiência?

Hilário - A criança chega enferma, física ou psicologicamente, e a gente cuida, pega no colo, dá mamadeira, acorda de madrugada, leva no médico. Damos o amor que ela não teve na família em que nasceu e isso é muito significativo na nossa vida, é transformador. A gente se torna menos egoísta, ama sem cobrar nada, luta por quem nem conhece. Nossa razão de viver muda. O amor é o único sentimento que você pode dar à vontade.

JC - O senhor e sua esposa continuam acolhendo crianças?

Hilário - Nós paramos temporariamente para cuidar da Eloá, que tem uma demanda grande. Ela era acolhida nossa há dois anos e seis meses e teve dificuldade em ser adotada por conta de alguns problemas físicos. Infelizmente, ainda existe muito preconceito. Percebemos que havia chegado a hora de adotá-la, conversamos com nossos filhos sobre o quão ruim seria ela voltar para o abrigo e o amor prevaleceu. Cumprimos todos os trâmites, pagamos um convênio médico e fomos atrás de neuropediatra, psicóloga, neurocirurgião, terapia ocupacional, Sorri, Apae. Precisamos deixá-la mais fortinha para pensar em voltar ao programa.

JC - Enquanto isso, continua fazendo trabalho voluntário?

Hilário - Sim. Há pouco mais de um ano, faço parte do grupo Juntos Somos Mais Fortes, que tem cerca de 70 pessoas e entrega, em média, 200 marmitas, toda segunda-feira, na Praça Machado de Mello. E vamos variando: damos bolo, refrigerante, pão, café, suco, o que a gente conseguir arrecadar. Sempre fazemos rifa, pedimos colaboração e temos conseguido. Temos até música ao vivo na hora da entrega, com um cantor voluntário que faz voz e violão. Quando fazemos as coisas com amor, sempre dá certo.

JC - E também é Papai Noel aos finais de ano, correto?

Hilário - Sou. Comecei há uns cinco anos, quando a diretora da escola de um acolhido meu me convidou e eu fui. Uma diretora foi conversando com a outra e essa ação se propagou. No ano passado, por exemplo, foram cerca de 15 escolas municipais. Também vou a algumas casas de crianças com problemas de saúde, já fui em um assentamento com 500 crianças. Elas abraçam, perguntam se podem puxar a barba e acreditam que Papai Noel está ali. É uma maravilha vê-las alegres. É uma energia muito boa, a gente só ganha. E faço tudo de forma voluntária. Não posso transformar um dom que Deus me deu em algo com finalidade de obter lucro.

JC - É esse olhar cuidadoso para o próximo que o move?

Hilário - Toda pessoa sempre tem a chance de ajudar alguém, seja com um conselho, uma conversa, comprando o número de uma rifa, doando um quilo de alimento. Eu acho que não viemos ao mundo de graça, para nascer, crescer, trabalhar, casar ou não, ter filhos ou não, e morrer. Temos uma missão e devemos fazer a diferença na vida de alguém e, com isso, o que te acompanha espiritualmente estará te ajudando. As palavras são boas, mas os exemplos arrastam.

O que diz o PM da reserva:
'A gente se torna menos egoísta, ama sem cobrar nada, luta por quem nem conhece. Nossa razão de viver muda'
'Faço tudo de forma voluntária. Não posso transformar um dom que Deus me deu em algo com finalidade de obter lucro'
'Temos uma missão e devemos fazer a diferença na vida de alguém'