09 de julho de 2026
SAÚDE

Obesidade: remédios celebrados

Por Bernardo Yoneshigue |
| Tempo de leitura: 3 min
Agência O Globo
A classe de medicamentos, à qual pertence o famoso Ozempic, teve início ainda nos anos 80 na busca por uma nova alternativa para diabetes

"A obesidade encontra seu adversário". É com este título que a revista científica "Science" elegeu os análogos de GLP-1 como o "avanço de 2023". A classe de medicamentos, à qual pertence o famoso Ozempic, teve início ainda nos anos 80 na busca por uma nova alternatiava para diabetes.

O destaque, porém, veio pela eficácia inédita para perda de peso, com números próximos aos da bariátrica. Agora, ainda que o elevado custo e o estigma que envolve a obesidade sejam desafios, especialistas consideram que, pela primeira, a doença de fato encontrou um oponente à sua altura.

"A obesidade é hoje um dos maiores problemas de saúde no mundo e tem índices crescentes. No Brasil, a previsão é que, em 10 anos, atinja 40% da população. Só que todos os tratamentos haviam sido frustrantes, com resultados ruins e perfis perigosos. Agora estamos num momento em que pela primeira vez temos opções eficazes e que se traduzem em melhores desfechos de saúde", diz Bruno Halpern, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica e vice-presidente da Federação Mundial da Obesidade para América Latina.

Médicos que trabalham com obesidade celebraram a escolha da "Science". Pontuam que a revista não se restringe a temas médicos, o que sublinha a relevância da decisão. Segundo a publicação, os remédios estão "remodelando a medicina, a cultura popular e até os mercados de ações globais de maneiras ao mesmo tempo eletrizantes e desconcertantes". O primeiro ponto para o destaque é a eficácia. Enquanto fármacos antigos proporcionavam uma perda de 6% a 8% do peso, os estudos mais recentes com a semaglutida (do Ozempic e do Wegovy, ambos da Novo Nordisk) mostraram uma redução de 17,4%, após 68 semanas. Já a diminuição com a tirzepatida (do Mounjaro, da Eli Lilly) chegou a 25,3% após 88 semanas. Ambos os trabalhos foram publicados na JAMA. "Eles também têm uma segurança maior que os antigos, com poucos efeitos colaterais que são manejáveis. Além disso, já há trabalhos mostrando que levam a benefícios para esteatose hepática, doença renal, para reduzir eventos cardiovasculares, melhorar qualidade de vida na insuficiência cardíaca. Então combinam potência para perda de peso, segurança bem estabelecida e benefícios adicionais para a saúde", explica Rodrigo Moreira, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Em agosto, um estudo com a semaglutida mostrou que o remédio melhorou os sintomas da insuficiência cardíaca, como melhor aptidão física e redução da fadiga e falta de ar. Três meses depois, outro trabalho constatou uma redução no risco de eventos cardiovasculares graves em 20% entre os pacientes. Halpern diz que é a primeira vez que um remédio interfere nos problemas de saúde associados à obesidade.

A "Science" destacou ainda que a semaglutida está sendo estudada para quadros de dependência após relatos de usuários sobre terem parado de beber ou largado o cigarro. Há pesquisas sendo conduzidas para tratamento do Alzheimer, principal causa de demência, por estudos indicaram um papel na doença da resistência à insulina no cérebro. Segundo a plataforma Clinical Trials, dos EUA, resultados iniciais são esperados em 2025.