O tradicional "Parabéns a você" tem suas raízes na cultura americana, mas o famoso coro que encerra a canção, conhecido como "É pique, é pique, é pique", tem origem bem brasileira, encravada na região central da cidade de São Paulo. Esta popular melodia, entoada em inúmeras celebrações, nasceu no boêmio e icônico bar Ponto Chic, também conhecido por ser o berço do tradicional sanduíche bauru, considerado Patrimônio Imaterial do Estado de São Paulo e, segundo o guia gastronômico TasteAtlas, o melhor lanche do Brasil.
Inaugurada no Largo do Paissandu em 1922, a casa tornou-se um reduto de artistas e intelectuais, especialmente a partir da Semana de Arte Moderna, marco cultural ocorrido no mesmo ano. Sua localização estratégica, a apenas cerca de um quilômetro da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, atualmente pertencente à Universidade de São Paulo (USP), fez com que o estabelecimento se tornasse um ponto de encontro popular entre os estudantes.
Em entrevista à Nossa, plataforma de viagem, gastronomia, casa, moda e lifestyle do UOL, Angelo Iacocca, autor do livro "Ponto Chic: um bar na história de São Paulo", comentou que os universitários da época eram conhecidos por suas trovas e cantorias criativas. E foi nesse ambiente efervescente que nasceu o famoso coro "É pique, é pique, é pique".
Atual administrador do Ponto Chic, Rodrigo Alves conta que o verso foi criado pela turma de estudantes de direito da qual fazia parte Casimiro Pinto Neto, na década de 1930. Natural de Bauru, ele é o inventor do sanduíche que leva o nome da cidade e é feito com pão francês, rosbife, tomate, pepino em conserva e queijo derretido.
TESOURA
"Eles fizeram uma brincadeira no aniversário de um amigo, o Ubirajara Martins, que vivia aparando seu bigode comprido com uma tesourinha. Fazia o barulho "pique, pique" e o apelido dele na faculdade virou Pique", conta. Após cantarem o "Parabéns a você", incorporaram, então, o "É pique, é pique".
Já o "É hora, é hora" faz referência à vida boêmia da época, onde a espera pelo chope gelado era uma experiência comum. Como a bebida era resfriada com barras de gelo, os estudantes precisavam aguardar meia hora até que a próxima rodada pudesse ser servida. "Dava o tempo e o salão começava a cantar "garçom, é hora, é hora, é hora".
A adição de "Rá-tim-bum" à canção teve origem em uma brincadeira com um visitante indiano, um rajá, que esteve na faculdade na mesma época. Seu nome soava semelhante a "Timbum", que, combinado à primeira sílaba do título do governante, deu origem ao grito que antecede as palmas finais da canção.
Rodrigo Alves é neto de Antônio Alves de Souza, que saiu de Franca e trabalhou como garçom no Ponto Chic, na Capital. Anos depois, ele e o filho José Carlos Alves de Souza adquiram o restaurante de um dos fundadores, Odílio Cecchini.