Passava das 15h30 desta sexta-feira (22) e o caminhoneiro - ou carreteiro - Silvério Antônio da Silva, 48 anos, terminava de arrumar as malas para sair em viagem rumo a Araçatuba. A previsão de retorno? A manhã de segunda-feira (25), dia de Natal. A exemplo de outros anos, em 2023 ele não participará da ceia ao lado de sua família.
"Quando chega a meia-noite a primeira coisa que eu faço é pegar a Bíblia e rezar pelos meus familiares", conta Silvério, que está há mais de 20 anos na profissão para a qual entrou por inspiração de um tio, que na adolescência trabalhava com carretas. O próximo passo é ligar para os entes queridos e desejar boas novas.
Silvério adquiriu sua primeira carreta aos 19 anos. Antes, porém, ele já dirigia caminhões de pequeno porte e fazia serviços no ramo. Hoje ele evita fazer entregas Brasil afora e limita preferencialmente seu percurso ao Estado de São Paulo. Mas já fez viagens interestaduais e extensas, que levam dias para serem finalizadas.
"É se apegar a Deus para andar nesse tapete preto que são as estradas. A solidão é natural, escolhemos isso", explica. Embora ande sozinho no veículo, Silvério conta que o caminhoneiro nunca estará necessariamente a sós. "Somos bastante unidos, é um diferencial da profissão", explica.
Silvério sabe que, assim como ele, outros colegas de estrada também estão longe de casa no Natal. Todos se encontram nos postos de gasolina das rodovias, geralmente à noite, quando param para descansar. "Cada um dá alguma coisa e fazemos nossa ceia", revela. O arroz carreteiro é figura carimbada na refeição e geralmente é consumido ao lado de um churrasco.
O mais difícil, conta o trabalhador, é sair de casa. "Quando minha filha era pequena e não entendia muito bem o que fazia ela chorava, pedia para o papai não ir", lembra. É dela que Silvério se lembra toda vez que pensa - mas logo desiste - em se adiantar nas estradas, ir um pouco mais rápido.
"Uma vez eu estava para sair em viagem e me veio uma grande dor de barriga. Não passava por nada. Consegui sair só depois de vários minutos. Já na rodovia, um caminhoneiro dormiu no volante e cruzou a estrada. Se eu tivesse embarcado antes, talvez poderia ser essa vítima. É Deus nos protegendo", lembra.
O profissional ainda voltará a tempo de passar o resto do dia de Natal ao lado de sua família. Não sabe, porém, se terá este privilégio na virada do ano. "Ainda está em aberto, mas pode ser que eu viaje", explica. Caso vá às estradas, de qualquer forma, não enfrentará grandes problemas. Terá, afinal, a Bíblia e os colegas a seu lado.