08 de julho de 2026
BEM-ESTAR & CIA

Autocuidado: Risco de virar mais uma obrigação

Por Constança Tatsch |
| Tempo de leitura: 4 min
André Mello (imagem ampliada no final)
OMS declara que autocuidado é a capacidade de indivíduos, famílias e comunidades para promover a saúde, prevenir doença e manter o bem-estar

Você tem que beber água, tem que dormir bem, tem que comer corretamente, tem que meditar, tem que estar magra, tem que fazer treino aeróbico, tem que fazer check-up, tem que ir à terapia, tem que dormir 8 horas, tem que encontrar as amigas, tem que estar bem...

É muito "tem que", não? Para especialistas, o autocuidado, que deveria ser um olhar generoso das pessoas consigo mesmas, em especial das mulheres, pode estar se tornando mais uma sobrecarga em meio a tantas obrigações, como trabalho e demandas da família.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declara que autocuidado é a capacidade de indivíduos, famílias e comunidades para promover a saúde, prevenir doença e manter o bem-estar. Mas como surgiu essa mentalidade?

A antropóloga Mirian Goldenberg acredita que a ideia de autocuidado surgiu para compensar uma sociedade cada vez mais individualista. "Algumas palavras entram na moda, como autoestima, estresse... Agora é autocuidado, que acho que existe muito em função de as mulheres não terem tempo para se cuidar porque cuidam de todo mundo. Mas poderíamos tirar o auto e falar sobre o que é cuidado hoje. É cuidar também de quem cuida para a pessoa não ficar tão estressada. Um cuidando do outro seria o ideal, mas isso não vai existir mais, vivemos numa sociedade egoísta", pondera.

Segundo ela, quando se fala em autocuidado, o alvo são, de forma geral, as mulheres: "Elas cuidam de todo mundo e ninguém cuida delas. O autocuidado masculino é totalmente diferente, primeiro que os homens não se cuidam, quem cuida da grande maioria dos homens é a mulher, que leva ao médico, corta unha, escolhe roupa... Eles se reservam outras preocupações".

A questão central é que o que era para ser uma mentalidade boa, acaba virando mais uma forma de pressão, como muita gente vem sentindo. "O autocuidado é algo individual: correr e meditar pode ser bom para um, enquanto o outro quer descansar. Cada um precisa encontrar o seu. A gente vê essas regras, mas não dá para generalizar. Tem que diminuir a voz externa e aumentar a voz interna porque só você sabe o que gosta e o que cabe na sua rotina. Fica muito no 'deveria', no "tem que", e a pessoa deixa de entender o que faz sentido para si mesma", diz a psicóloga Julia Bittencourt, autora dos livros "Psicologia e Saúde da Mulher" 1 e 2 (Editora Conquista).

Nem sempre estética importa

Há muito tempo ouvem-se críticas de que uma mulher é descuidada. Estaria a estética relacionado ao autocuidado? "Existe o autocuidado da saúde física, mental e espiritual e existe o cuidado da aparência, que não chamaria de autocuidado. Essa ideia de que, se você não é vaidosa, você não se cuida... Há 30 anos pesquiso mulheres e já ouvi isso 200 vezes. A estética para algumas mulheres pode ser importante. Tem que compreender a lógica de cada pessoa", diz a antropóloga Mirian Goldenberg.

"Cabe a cada uma de nós decidir o que realmente é importante, apesar da pressão. A maturidade é a autonomia de escolha. Tem pressão, mas não faço a unha, não faço musculação", alega ela. Julia Bittencourt concorda: "A pessoa tem que avaliar o que serve a ela e o que serve ao outro", alerta.

Um cuidado por dia: tarefas que se acumulam e só pesam

Para a psicóloga Julia Bittencourt, é, sim, importante ter tempo para si mesma, prestar atenção à saúde, ter prazer, hobbies, mas, às vezes, fazer uma coisa por dia já é bastante dentro da rotina. As pessoas se cobram fazer 10 coisas que ouviram falar e não conseguem. "Quando se pensa em comportamento, tem sempre esse 8 ou 80. Antigamente, todo mundo estava na correria, trabalho, filhos, dar conta de uma 'check list' sem se incluir nessa lista. Veio essa ideia de que a gente precisa se cuidar. É importante, mas talvez tenha ido para outro extremo, tomar água com limão, fazer musculação, acordar às 5h para meditar... A pauta da saúde está em alta e é essencial, mas não deve ir para o outro extremo."

A própria Mirian Goldenberg conta que, mesmo diante da pressão para que faça musculação, segue com suas caminhadas. "Autocuidado, para mim, não pode ter a ver com mais uma obrigação e um trabalho. Eu caminho todo dia desde os 8 anos, e sempre foi minha forma de elaborar os pensamentos, meus sofrimentos. Isso para mim é autocuidado, não é algo que alguém me disse: tem que fazer musculação... O 'tem que', principalmente nos momentos que a gente precisa, vira nova forma de pressão e sofrimento. Porque além de tudo você se sente culpada por não fazer o 'tem que'. Autocuidado é importante, mas é individual. Não pode vir de fora", explica.

A solução, a antropóloga busca na filosofia estoica: o princípio básico é você agir naquilo que tem controle e evitar que o que não tem controle afete sua vida. "E, dentro disso, viver a vida da melhor forma possível, de forma equilibrada. Mas vai acontecer um monte de coisa, tem gente que se cuida 100% e morre num incêndio ou afogada", afirma Goldenberg.