09 de julho de 2026
OPINIÃO

Ilusória economia

Por Gregório José |
| Tempo de leitura: 2 min
Jornalista/radialista/filósofo

O cenário dos supermercados, aparentemente inofensivo aos olhos desatentos, esconde uma realidade alarmante: a crescente prática da "reduflação". O consumidor, muitas vezes desavisado, tem se deparado com uma série de transformações nos produtos do dia a dia, transformações essas que vão além das simples mudanças de embalagem. A metamorfose dos produtos lácteos é emblemática desse novo fenômeno econômico. O leite, outrora símbolo de pureza e nutrição, agora se transforma em soro de leite. O iogurte, que deveria ser uma fonte de bactérias benéficas para o organismo, se torna uma misteriosa "mistura láctea". A engenharia econômica não para por aí: os pacotes que antes continham 1 kg agora minguam para 900g, e o litro de óleo se converte magicamente em 750ml. Estamos testemunhando a redução de medidas e a manipulação das composições dos produtos como estratégia para conter o avanço dos preços.

A chamada "reduflação" é, portanto, uma resposta cruel à inflação crescente. Enquanto os preços sobem incessantemente, a quantidade e a qualidade dos produtos despencam, deixando os consumidores perplexos diante da inversão de valores. A prateleira do supermercado, antes repleta de opções, se torna um campo minado de escolhas ilusórias. Equipe de reportagens do UOL esteve em alguns supermercados e evidenciou essa prática disseminada. O sabão em pó, símbolo de limpeza eficaz, reduz seu peso de 1 kg para meros 800g. Embalagens de molho de tomate, essenciais na cozinha, são enxugadas de 150g para 120g, como se a necessidade de sabor também pudesse ser reduzida. Até mesmo as latas de ervilha e os inofensivos palitos de fósforo são atingidos pela faca afiada da redução quantitativa.

A ironia atinge um novo patamar quando produtos "são, mas não são". O leite condensado, sob o rótulo enganoso de "Moça Pra Toda Família", revela-se uma mistura láctea condensada de leite, soro de leite e amido. O consumidor, que busca autenticidade, se depara com uma mistura adulterada, enquanto o produto original é relegado a uma condição secundária. O custo disso vai além do bolso do consumidor. A saúde e o bem-estar estão sendo comprometidos pela substituição de ingredientes essenciais por artifícios mais baratos. Produtos lácteos adulterados com amido, soro de leite ou água representam não apenas uma fraude econômica, mas uma ameaça à integridade nutricional.

A chamada "reduflação" não é apenas uma estratégia econômica; é um golpe na confiança do consumidor. À medida que os produtos se encolhem, a sensação de estar sendo ludibriado cresce. É crucial que os consumidores estejam atentos e exijam transparência e qualidade nos produtos que adquirem. Afinal, não podemos permitir que a redução de medidas resulte na diluição de nossa confiança nos produtos que fazem parte de nosso cotidiano.