02 de junho de 2026
MULHER DE LUTAS

Entrevista da semana: Ana Claudia Rodrigues Fatia


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Divulgação
Ana também foi lutadora de MMA, em 23 anos nas artes marciais

Ana Claudia Rodrigues Fatia, 40 anos, é uma mulher de lutas, seja nos tatames e octógonos, seja na vida pessoal. Com 23 anos de carreira como atleta de artes marciais, a bauruense é bicampeã mundial, campeã sul-americana e pan-americana de kung fu, além de ter somado mais de uma centena de medalhas em campeonatos desta modalidade e de kickboxing no País. Foi, ainda, lutadora de MMA.

Formada em educação física, é faixa preta de kung fu e kickboxing e faixa azul de jiu-jitsu e professora destas e outras artes, como tai chi chuan, muay thai e MMA. Permaneceu por dez anos na Seleção Brasileira de Kung Fu, onde teve a oportunidade de conhecer países como China, Turquia, Canadá, México e Chile.

Aposentada definitivamente das competições oficiais como atleta, Ana tem como meta, agora, tornar-se técnica da Seleção Brasileira Feminina de Kung Fu. Para tanto, tem se preparado: há uma semana, por exemplo, obteve a graduação do último (nono) nível de professor de Sanda, tornando-se mestre nesta modalidade do kung fu e a primeira mulher do Estado, a segunda do Brasil, a conquistar este feito.

É, ainda, árbitra de MMA, entre outras modalidades, mãe de Eduardo, 9 anos, e Julia, 4 anos, e uma mulher que conta ter superado um relacionamento abusivo. Nesta entrevista, Ana relembra sua trajetória, conta como o esporte a tornou forte e como a fé a fez cuidar mais de si. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista.

JC - Como descobriu a vocação para as artes marciais?

Ana - Sempre gostei dos filmes do Jackie Chan e do Jet Li, da ideia de disciplina, de esforço e queria fazer atividade física. Morava no Jardim Carolina e havia uma academia perto, onde tinha um projeto da prefeitura. Comecei fazendo judô aos 12 anos, mas acabei parando. Queria fazer kung fu e não tinha vaga, que só consegui em 2001, aos 17 anos. Treinava três horas por dia, de segunda a segunda. Após sete meses, fiz minha primeira graduação no estilo Hung Gar e, logo depois, tive minha primeira competição, interestadual, em Ourinhos, em que ganhei as duas lutas que fiz.

JC - A partir disso, entrou para o circuito de competições?

Ana - Sim, em 2002. Na época, fazia o kung fu tradicional, como Hung Gar, e o esportivo, o Wushu, um estilo unificado pela China para o mundo. Meu foco era demonstração com bastão, espada, corrente, mas também lutava. Fui ganhando competições em todas as modalidades, inclusive o Campeonato Brasileiro, e o técnico da Seleção, em 2003, me convocou. Precisei fazer uma escolha e decidi ficar no combate (Sanda). Fiquei na Seleção por dez anos, nas categorias de 52 e 56 quilos. Ao longo da carreira, somei 143 medalhas em campeonatos no País - 13 no Paulista e cinco no Brasileiro -, fui campeã sul-americana, pan-americana e tenho duas medalhas de bronze no Mundial, em 2007 e 2009, sendo a primeira brasileira a subir neste pódio, além de ter ficado com o bronze na Copa do Mundo de 2008.

JC - Depois, não disputou mais mundiais?

Ana - Tentei na Turquia, mas fiquei em quinto. Em 2010, tive minha primeira lesão no joelho, em um treino da Seleção. Depois, em 2012, rompi o ombro e, enquanto tentava voltar a treinar em alto rendimento, passei a participar de lutas com atletas de outras modalidades, como kickboxing. E acabei indo para o kickboxing, conquistando os campeonatos Paulista e Brasileiro. Eu já era faixa preta de kung fu e me graduei como faixa preta de kickboxing. Mas, aos poucos, fui mudando o foco e comecei a competir no MMA. Ainda em 2009, abri uma escola de artes marciais em Bauru, que funcionou até 2019. Dei aulas de kung fu, kickboxing, tai chi chuan, muay thai, MMA.

JC - Como foi sua experiência no MMA?

Ana - Comecei em 2010. Fui para Brasília fazer camping (capacitação) com a equipe Constrictor, uma das mais fortes do MMA, mas como o Eduardo ainda era bebê, fiquei em Bauru. Como teste para entrar na Chute Boxe daqui, venci uma luta com uma atleta deles que era muito boa. Na época, fui com meu mestre, João Emílio, fazer campings. Conheci muita gente do meio. Em Curitiba, cheguei a fazer sparring com a Jennifer Maia e treinei com mestres como Cris Cyborg e Wanderlei Silva. Minha primeira luta foi com a Ericka Almeida, faixa preta de jiu-jitsu, que me finalizou no chão. Em São Paulo, conheci a Vanessa Melo, a Glorinha de Paula. Todos são lutadores ou ex-lutadores do UFC.

JC - A Ericka foi a que denunciou o ex-companheiro por violência doméstica?

Ana - Sim. E eu passei por situação semelhante. Tive um relacionamento abusivo em que a pessoa tinha muito ciúme, porque convivo e treino com homens. Essa pessoa chegou a me pegar pelo pescoço, me ameaçou de morte. Depois do término, me perseguiu e precisei de medida protetiva. Como estava focada na carreira, demorei a entender que aquilo não era bom para mim. Mas, quando me converti cristã, consegui me reerguer, ver de modo diferente a minha profissão e cuidar mais de mim. Passei por muitas guerras internas, mas me mantive mentalmente forte.

JC - Quais são os planos para o futuro?

Ana - Só para completar, ainda fiz mais algumas lutas de MMA, campings, mas a maioria das oponentes era faixa preta em jiu-jitsu, que eu ainda tentava aperfeiçoar. Também tive dificuldades em termos de agenciamento, como propostas de luta com meninas de categorias com peso acima. A luta me ensinou a não desistir de muita coisa, mas percebi que precisava mudar minha trajetória. Um tempo depois de fechar minha escola, fui trabalhar na academia Maravilhosas como professora de kickboxing e personal trainer. Agora, estou dando aulas de muay thai na Blue Fit, onde também sou personal fight e trainer. Além disso, me tornei árbitra de MMA e faço eventos do Demolidor Fight na região. Com a conquista do último nível na graduação de Sanda, meu desejo é voltar a arbitrar lutas de kung fu e, se tudo der certo, me tornar técnica da Seleção Feminina e formar um time forte para disputar o Mundial em 2025, que será, pela primeira vez, no Brasil.

Larissa Bastos

Entrevista da semana com Ana Fatia, do Kung Fu. 05/12/2023

Arquivo Pessoal

 Ana com os filhos Eduardo e Julia