"A vida tem de ser uma festa". É assim que Marina Vanini Dal Colletto, prestes a completar 90 anos, resume o balanço de sua longeva e produtiva trajetória. Amante do samba e do Carnaval, foi eleita Rainha da festa de Momo do Bauru Tênis Clube aos 16 anos.
Na época, desejou ser vedete de teatro, o que parecia demasiadamente transgressor em uma sociedade do Interior no início da década de 1950. Tornou-se, então, professora, ofício ao qual se dedicou, com todo seu vigor característico, por cerca de três décadas.
Indo muito além dos ensinamentos em sala de aula, ela mantinha contato próximo com a comunidade escolar e chegou a receber alunos em casa para lições de reforço. Por sua atuação, foi premiada, em 1974, como a melhor professora do ano em Bauru.
Ao mesmo tempo, continuou presente, até antes da pandemia, nos bailes de Carnaval, tendo recebido troféus de melhor foliã, fantasia mais bonita e destaque de salão no Automóvel Clube, Luso e Hípica. Nascida em Macatuba, Marina é viúva de Hugo Dal Colletto, com quem teve os filhos Rossana e Hugo. A família é formada, ainda, por dois netos e três bisnetos.
Coautora de dois livros escritos por professoras de Bauru de sua geração e voluntária em ações assistenciais, Marina celebrou, em 18 de novembro, seus 90 anos, que serão completados oficialmente em 28 de dezembro. Nesta entrevista, ela relembra momentos marcantes de sua trajetória, dos difíceis aos mais felizes, desde infância até dos dias atuais.
JC - A senhora celebrou com festa, recentemente, seus 90 anos. Como foi este momento?
Marina - Foram mais de 150 convidados. O tema foi o "Boteco da Marina", com barman fazendo drinks, um balcão com comida de boteco, chope, cerveja, samba ao vivo com o grupo Boca de Leite e integrantes da escola Mocidade, amigos e família. Ou seja, tudo que eu gosto, uma vida agitada. Acordei às 8h para fazer cabelo e maquiagem e, às 11h30, já estava na festa para receber os convidados. Tenho uma saúde e uma vitalidade que, às vezes, pessoas de 70 anos não têm.
JC - Conte um pouco sobre a infância. A senhora era agitada assim desde sempre?
Marina - Meu pai era dentista prático licenciado e minha mãe, do lar. Ele atuava na região entre São Manuel e Lençóis Paulista. Estávamos morando em um vilarejo chamado Paranhos e lá, só havia professores até a terceira série. Eu, junto com meu irmão, pegava um trem da Sorocabana para fazer a quarta série em São Manuel. No ano seguinte, a família veio morar em Bauru e estudei no colégio Guedes de Azevedo. Desde pequena, meu avô tocava sanfona, fazia bailes de São João e eu dançava, cantava, era a rainha da festa. Quando estava ficando mocinha, queria ser vedete de teatro, mas meu pai não deixou. Então, decidi ser professora. Ingressei no curso de magistério do Instituto de Educação e, com 19 anos, comecei a dar aulas
JC - E permaneceu por quanto tempo na profissão?
Marina - Dei aulas 8 anos e meio na prefeitura, em Bauru, para crianças da primeira à terceira série. Depois, fui dar aula na rede estadual, em Gália. Fiquei lá por cerca de um ano e meio e voltei a Bauru, para dar aulas na primeira série em uma escola do Nova Esperança, onde fiquei até me aposentar, em 1982. O tio do meu marido era Salvador Filardi, que nos doou uma chácara naquela região da cidade, depois do casamento. Eu alfabetizei alguns bauruenses conhecidos, como o bispo de Nova Friburgo, dom (Luiz Antonio Lopes) Ricci, e o Antonio Pedroso Junior.
JC - Que lembranças guarda dessa época?
Marina - Professor era uma autoridade na cidade, dentro da sala de aula e para os pais dos alunos. Foi uma época maravilhosa, eu gostava demais do que fazia. A gente era um pouco assistente social, psicóloga, mãe e muito professora. Eu ensinava receitas de bolo às mães, orientava a plantar horta, pomar, ia na casa de alunos doentes, que faltavam, para dar ditado, fazer leitura, estudar tabuada. E, na chácara em que eu morava, tinha uma área grande, onde eu dava aula de reforço, de dicção, à tarde, para os estudantes com mais dificuldades. Foi um sacerdócio, mesmo.
JC - Quando aposentou-se, foi curtir a vida?
Marina - Eu me casei aos 21 anos, mas já tinha sido rainha do Carnaval do BTC com 16. Aos 19, já estava namorando o Hugo. Fomos muito companheiros. Ele gostava da vida noturna, mas queria que eu deixasse o Carnaval. Como não parei, ele acabava me acompanhando em tudo, nos bailes da Hípica, clube que ajudou a fundar, bem como no BTC, na Luso. Foi um casamento de 55 anos, com altos e baixos, momentos difíceis com a saúde dos filhos, mas eu soube tirar as pedras do caminho. Meus filhos estão ótimos, são inteligentes e maravilhosos. Agradeço a Deus todos os dias por ter tido a vida que tive, com esclarecimento, crescimento espiritual. Sou uma mulher feliz.
JC - O que tem feito hoje e quais são os planos para o futuro?
Marina - Minha mãe viveu até os 98 anos e meu pai, fumante inveterado, até os 82 anos, mas outros da família morreram mais cedo. Então, não faço planos. Eu vivo e usufruo de todos os dias com alegria. Hoje, atuo mais em ações de assistência social. Depois que me aposentei, dei aulas de canto por muito tempo em uma creche da rua Gérson França. E estou há 20 anos no Grupo Voluntários em Ação. Também peço doações a amigas e vamos entregar. Se vejo alguém na rua precisando de algo, vou socorrer. É uma dádiva de Deus poder ajudar alguém.
JC - Qual o segredo para uma vida tão longeva e produtiva?
Marina - Eu caminhei dois quilômetros por dia por 30 anos, até antes da pandemia. Há 30 dias, comecei a fazer pilates. E, além das festas, sempre gostei de viajar. Fui várias vezes com meu marido para a Itália, Argentina. E, desde que fiquei viúva, há 12 anos, viajo com minhas amigas. Já fomos para Nova Iorque, Miami, México, em uma viagem de navio na Argentina. A vida tem de ser uma festa.
O QUE DIZ A PROFESSORA
'Tenho uma saúde e uma vitalidade que, às vezes, pessoas de 70 anos não têm'
'Gostava demais do que fazia (como professora). A gente era um pouco assistente social, psicóloga, mãe'
'Agradeço a Deus por ter tido a vida que tive, com esclarecimento, crescimento espiritual. Sou uma mulher feliz'