09 de julho de 2026
VIDA DIGITAL

Aumentar impostos sobre carros elétricos vai privar acesso


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Divulgação/Ford
Daniel Justo: Ainda não existe uma escala de adoção dos veículos puramente elétricos no Brasil que justifique a produção local

A Ford quer ser reconhecida não apenas como uma montadora, mas também como uma empresa de tecnologia. Esse foi o tema principal da viagem promovida pela fabricante a Detroit, onde executivos apresentaram os novos carros elétricos e a Newlab, incubadora de startups que ocupa um prédio histórico na cidade.

No Brasil, essa evolução passa pelo Centro Global de Desenvolvimento e Tecnologia em Camaçari (BA), que emprega 1.500 engenheiros. Por outro lado, o trauma do fechamento de fábricas, em 2021, ainda afeta a imagem da companhia.

Para Daniel Justo, presidente da Ford na América do Sul, é necessário olhar para frente e zerar emissões, O primeiro veículo elétrico da marca no mercado nacional é o Mustang Mach E, que custa R$ 486 mil.

A Ford anunciou a chegada do seu primeiro carro elétrico no Brasil, o Mustang Mach-E, em meio às discussões sobre a volta do imposto de importação para esses veículos. Isso afeta a estratégia de vocês?

Daniel Justo -  Afeta a nós como afeta a todo o mercado. Ainda não existe uma escala de adoção dos veículos puramente elétricos no Brasil que justifique a produção local. A grande discussão é: qual o momento certo para tarifar novas tecnologias? Se há cobrança muito cedo, você priva o consumidor de experimentar a tecnologia, e, dessa forma, a infraestrutura nacional não tem como se adaptar. Ainda há muito a evoluir nessas questões. A matriz energética brasileira é extremamente eficiente, mas a concentração de emissões em centros urbanos é uma questão de saúde. E a evolução da infraestrutura elétrica é algo que gera atividade econômica, há os carregadores e a comercialização de energia, por exemplo. Mas o país ainda tem uma longa jornada, então eu realmente não acredito que seja o momento de privar os clientes do acesso a essas tecnologias.

A Anfavea [associação das montadoras] colocou em questão a cobrança de uma taxa sobre veículos e peças importadas de países cuja legislação ambiental é menos rigorosa que a brasileira. A Ford tem o Territory, que é montado na China. Isso é uma preocupação para a montadora?

Daniel Justo - Um veículo como o Territory já é altamente tarifado. Além de pagar 35% de imposto de importação, há toda a carga de impostos sobre o consumo. Eu não entendo muito bem qual é o argumento [da Anfavea], acho que não é o momento de o Brasil aumentar taxas. A preocupação maior, ao que parece, é com os carros elétricos chineses, de marcas como BYD e GWM. Acho que é mais um movimento de proteção que vai gerar uma oferta menor tecnologia para o cliente brasileiro e menos competitividade na indústria.

A GM, principal concorrente da Ford, fez grandes anúncios sobre veículos eletrificados e chegou a falar em produzir apenas modelos 100% elétricos a partir de 2035. A Ford parece mais cautelosa nesse tema. Por que essa diferença?

Daniel Justo -  São vários fatores que definem a migração para a eletrificação. Qualquer curva de adoção de produtos elétricos está exposta a fatores macroeconômicos, fatores de custo dos minerais e políticas governamentais. O que nós acreditamos é ter um portfólio que esteja preparado para essa transição. Estamos tentando oferecer para o cliente uma ampla gama de alternativas: os produtos puramente elétricos, os produtos híbridos e os produtos a combustão com a maior eficiência possível de consumo.

A Ford pretende investir na produção de baterias na América do Sul?

Daniel Justo - Estamos investindo 50 bilhões de dólares em eletrificação, com a construção de fábricas de baterias nos Estados Unidos. Essa produção demanda alta escala. Hoje, o papel da América do Sul, do ponto de vista de acordos, é o suprimento de minerais.

A Ford pretende ampliar o número de pontos de venda no Brasil?

Daniel Justo - São 115 pontos hoje, conseguimos cobrir toda a extensão do território nacional, mas sempre buscamos oportunidades de crescimento. Nos últimos 18 meses, renovamos lojas dentro do novo padrão Signature, além de abrir novas concessionárias. O que eu vejo para frente é uma contínua expansão.

Desde que encerrou a produção no país, a Ford não tem mais modelos flex à venda. Há algum plano para voltar a oferecer veículos que consumam etanol?

Daniel Justo - Investimos muito na eficiência dos nossos modelos a combustão e lançamos a picape Maverick híbrida no mercado, além de preparar a nova Ranger para o biodiesel B20. No caso do etanol, temos a tecnologia, sabemos como fazer e já fizemos, mas, no momento, não é parte do nosso plano, estamos indo em direção à eletrificação.