Desde que nascemos absorvemos o ambiente, e nossa forma de nos comunicar com ele é percebendo e sentindo o entorno. Esta forma primitiva diz respeito ao comando do Id (uma das três estruturas do aparelho psíquico, a fonte da energia psíquica), este que nasce conosco e que nos acompanha até o fim da vida e que determina grande parte de nossas ações.
No início da vida, o modo como somos segurados, amamentados, trocados, asseguram e norteiam o ambiente para que possamos nos reconhecer como indivíduos e seguir as fases do desenvolvimento, e na forma como tudo acontece, somos tocados de maneira a introjetar estes estímulos que serão decodificados em impressões sobre este ambiente. Como tudo acontece traduz no bebê o sentimento de ser ou não amado, desejado, esperado, e diante de nossas atitudes, ele cria um sentido de coerência ou não.
Este modo de comunicação é muito potente porque assim como é capaz de causar danos e situações desastrosas, diz sem falar, aconchega sem sufocar, se faz presente, ausente, fala no silêncio, assegura um ambiente que seja capaz de proporcionar condições necessárias para que o bebê apreenda o ambiente.
Sendo esta a forma mais primitiva de comunicação, sua potência enquanto aprendizado torna-se um meio extremamente poderoso diante dos filhos que são capazes de internalizar muito mais quem somos pelo exemplo do que pela fala, exatamente por ser um meio capaz de adentrar nossas experiências primitivas.
Como nos portamos a partir deste modelo é a grande ferramenta, uma pérola que transpõe nossa própria necessidade narcísica de aprovação quando estamos com o outro e queremos prevalecer nós mesmos e aquilo que julgamos ser o melhor, mas quando agimos, damos pistas que as coisas não são bem assim porque não damos exemplos que são capazes de validar nossas crenças, tomamos atitudes descompassadas.
Acreditamos no amor, mas excluímos, temos religiosidade, mas não colocamos em prática os ensinamentos, cremos na democracia, mas somos tiranos, firmamos contratos, mas traímos, desrespeitamos os combinados, impomos aos filhos o que não fazemos, vamos a igreja e fazemos doações, mas excluímos o próximo que está perto de nós, não o enxergamos.
O exemplo diz sem falar, cativa sem seduzir, inclui sem falsos sorrisos, e sobretudo talvez seja o único ato capaz de transformar qualquer ambiente que minimamente pretende deixar bons ensinamentos. Do contrário, infelizmente é assim também que acontece.
A fala veio depois, um meio de comunicação que no decurso do desenvolvimento aconteceu a partir do momento em que o bebê já se reconhecia e era capaz de outras formas de interação, mas o que aconteceu antes ainda persiste e nos dá pistas da potente ferramenta que temos a nossa disposição quando pensamos em dar exemplo, muitas vezes esquecido e sobretudo banalizado pelo nosso próprio superego.
Agir pelo exemplo nos coloca em contato com o que de fato importa e torna-se um meio poderoso diante de quem nos toma como referência quando este consegue encontrar correspondência. Do contrário, nossas atitudes continuam sendo uma repetição dos nossos próprios conflitos e neste caso, as vítimas são quem mais amamos. O bom exemplo é uma ferramenta poderosa de transformação!
Este texto foi escrito ao som da música "Quem Sabe Isto Quer Dizer Amor", com Milton Nascimento.