10 de julho de 2026
CULTURA

‘As Órfãs da Rainha’ mostra Brasil colonial com violência e lirismo

Por FolhaPress |
| Tempo de leitura: 2 min
Divulgação
Cena do filme

Na ficção, o drama histórico é um subgênero contraditório na relação com o passado do mundo. Por um lado, a mimese característica do cinema, se bem trabalhada, transporta o espectador para outros tempos e espaços e tende a ofuscar a noção de que se trata de uma construção artificial de imagens e sons. Por outro, todo drama histórico, de partida, é um fracasso conceitual, no sentido de que nunca será de fato fiel a seja lá qual relato fizer, por mais que transpareça autenticidade.

Entre uma ponta e outra, "As Órfãs da Rainha" tenta se acertar no meio. O filme é fruto de intensa e apurada pesquisa sobre mulheres do Brasil colonial em fins do século 16, ao mesmo tempo em que assume o aspecto de fábula poética, compreende as próprias limitações e ainda tira vantagem delas.

Esta nova ficção da diretora mineira Elza Cataldo, sua primeira desde 2005, quando lançou o também drama histórico "Vinho de Rosas", ambienta-se num pequeno vilarejo da Bahia em 1588 e acompanha três irmãs recém-chegadas de Portugal instalando-se a contragosto no lugar. Elas são enviadas pela rainha portuguesa supostamente para ajudar a povoar terras brasileiras com sangue de nobreza.

Alguns segredos em torno de suas origens vão surgir, enquanto elas se veem obrigadas a se adequar a vidas que não pediram e a submissões que nunca idealizaram.

Assim como em "Vinho de Rosas", que tratava de uma filha do revolucionário Tiradentes, "As Órfãs da Rainha" parte da inquietação das personagens com a inserção forçada numa estrutura social na qual elas não parecem ser bem-vindas. Cada irmã lida com essa condição ao seu próprio modo e cada uma é representativa de um aspecto de origem da opressão sofrida por mulheres ao longo da história do país.

Leonor, papel de Letícia Persiles, casa-se com um judeu que esconde a religiosidade por temor de represálias antissemitas; Brites, vivida por Rita Batata, tem um marido abusivo e violento, cujo ressentimento pela dificuldade dela de engravidar só agrava a situação; e Mécia, interpretada por Camila Botelho, tem uma deficiência física, torna-se assistente do pároco e se envolve com um rapaz indígena, numa alegoria da miscigenação.

Cada núcleo das irmãs coloca no filme também personagens que as rodeiam, como a feiticeira local, a ex-escravizada e o padre. Todos e todas movem a engrenagem de construção dessa sociedade ainda em vias de se formar, iniciada por degredados enviados à colônia tropical e ali tocando o dia a dia da formação de uma nação.

AS ÓRFÃS DA RAINHA
Onde: Nos cinemas
Classificação: 12 anos
Elenco: Letícia Persiles, Rita Batata, Camila Botelho
Produção: Brasil, 2023
Direção: Elza Cataldo
Avaliação: Bom