10 de julho de 2026
ENTREVISTA

Robson Tirotti Felipe: perito na música lírica

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Arquivo Pessoal
Robson com a vitrola, que era da avó materna

Apurar evidências de crimes, até mesmo em cenas de homicídios e acidentes fatais de trânsito, e dedicar-se à divulgação da música lírica podem parecer objetivos difíceis de coexistirem em uma mesma pessoa. Mas o foco no trabalho para fazer justiça e a fascinação pela arte - em especial, a ópera - são duas das facetas do perito criminal e professor Robson Tirotti Felipe, 43 anos.

Nascido em Bauru e com ascendentes vindos da Itália, país onde este gênero musical surgiu, ele se apaixonou ainda jovem pela música lírica e, de lá para cá, fez aulas de canto, se apresentou em diversos espetáculos no Brasil e fora dele, até se tornar, nos dias atuais, um entusiasta. Como presidente da Associação de Amigos da Cia. Ópera São Paulo, presta apoio a produções que difundem a música lírica em todo o território paulista.

Na última semana, inclusive, Robson atuou nos bastidores para trazer a ópera "Cavalleria Rusticana" a Bauru, peça que integra o projeto "A Caminho do Interior". "Não se trata mais de um gênero elitista. Está muito mais acessível, inclusive com legendas em português", diz, lembrando que os 450 ingressos do espetáculo, gratuitos, esgotaram-se em poucas horas após a liberação para retirada.

Nesta entrevista, o perito, que namora com Bruna Fernanda de Picoli, revela o trabalho desenvolvido atualmente por ele no Instituto de Criminalística de Bauru de combate à falsificação de documentos, revela casos marcantes de sua carreira, além de descrever sua trajetória de imersão e dedicação à música lírica. Leia, abaixo, os principais trechos.

JC - De onde veio o interesse pela ópera?

Robson - Sou filho único de Odevaldo Felipe e Sandra Terezinha Tirotti Felipe. Nós morávamos na Bela Vista e eu tinha uma convivência próxima com minha avó materna. Ela era neta de italianos e tinha uma casa perto de nós. Cheguei a morar um tempo lá. E ela tinha uma vitrola antiga, de madeira, e uns discos de música brasileira, da década de 40, 50, e um ou outro de italiana. Eu ouvia e gostava. Já na década de 90, passou na TV o concerto Pavarotti & Friends, em que ele convidava diversos cantores de música popular para shows em Módena, na Itália. Foi a primeira vez em que tive contato com ópera, fiquei encantado e quis saber mais.

JC - Em uma época em que a Internet era incipiente, como conseguiu ter acesso a mais materiais?

Robson - Existiam as lojas de discos, os CDs estavam começando a chegar. De vez em quando, ouvia uma música, ia na loja comprar o CD e, a partir disso, descobria as outras do disco. Também comprava quando passava férias na casa de uma parente da minha avó, em São Paulo. Lá, tinha muitos sebos e adquiria discos usados. Além disso, as lojas de Bauru trabalhavam com encomendas. Elas tinham um catálogo mais grosso que lista telefônica, mas demorava para chegar, por ser importação.

JC - O apreço pela ópera teve ligação com sua ascendência italiana?

Robson - Sim, mas não por influência direta da família. Eu fui ampliando meu repertório, até que, em 1997, houve um recital no Teatro da USC com o tenor Amauri René e a soprano Leila Guimarães. E o Amauri se fixou em Jaú, começou a dar algumas aulas de canto em Bauru e me tornei aluno. Até então, eu só tinha cantado no coral da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, na adolescência. Depois, acabei fazendo aulas com o Amauri durante anos em Jaú. E fiz aulas semanais em São Paulo. Fazia por hobby. Nessa época, eu estava com 20, 25 anos.

JC - Já tinha concluído a faculdade, nesta época?

Robson - Sim. Concluí o curso de física na Unesp aos 21 anos. Depois do coral da igreja, cantei por dez anos no coral Arte Viva, regido pela Sônia Berriel. Além de corista, fui solista, viajamos por diversos estados e a Europa. Depois, apareceram outros solos na Orquestra de Câmara da USC, com o maestro Marcos Virmond; o Madrigal Anima. Simultaneamente, era professor de física e matemática, dando aulas por 17 anos no ensino médio e no Ferraz concursos. Depois de assistir ao primeiro espetáculo de música lírica, passei a ir a muitos outros, inclusive em São Paulo, e comecei a fazer amizades, o que me permitiu atuar nos bastidores deste meio.

JC - Depois, você acabou ingressando no serviço público. Como foi esta transição?

Robson - Tornei-me escrevente do Tribunal de Justiça, no Fórum de Bauru, e continuava dando aulas. Mas fiquei apenas um ano, quando passei no concurso para perito. Para a aprovação, estudava nas horas vagas. Deixei de lado matemática e física e foquei no que eu tinha dificuldade. E, dentro do TJ, tendo que estudar direito para o concurso da polícia, veio a paixão pelo direito, área em que me graduei já sendo perito.

JC - Com a mudança, continuou morando em Bauru?

Robson - Fiquei um ano em São Paulo fazendo curso de formação e, depois, fui para Marília, onde fiquei por seis anos. Permaneci três anos em Bauru, mais três em Avaré, até ser convidado a assumir uma diretoria em São Paulo, em 2018. Fiquei por um período lá, trabalhando na identificação de documentos falsificados, como RGs, CNHs, atestados médicos, e acabei pegando gosto. Em 2020, voltei a Bauru e, até hoje, continuo trabalhando nesta área. Desde 2012, também atuo como professor da Academia de Polícia Civil em documentoscopia, criminalística e locais de crime.

JC - Como perito, você chegou a atuar em cenas de homicídios. Qual caso marcou mais?

Robson - Sim, trabalhei na rua de 2007 a 2018, em Marília, Bauru e Avaré. Dois casos em Marília me marcaram. Um foi o incêndio em que uma mãe perdeu três crianças. A casa estava sem energia, ela usou velas e, por algum motivo, havia saído para ir na vizinha. Foi algo que gerou muita comoção. E o outro foi um acidente com sete mortes, sendo três crianças. Quando há crianças, é mais difícil, a gente precisa se concentrar mais para não perder o foco, precisa encontrar equilíbrio, tendo empatia pela dor dos familiares, sem ser sensível a ponto de deixar a técnica de lado e não fazer seu trabalho com objetividade, algo importante para que a justiça seja feita.

O que diz o perito:

'Na década de 90, passou na TV o concerto Pavarotti & Friends. Foi a primeira vez em que tive contato com ópera'.

'Cantei por dez anos no coral Arte Viva. Viajamos por diversos estados e a Europa'.

'Quando há crianças (mortas, no local a ser periciado), é mais difícil, a gente precisa se concentrar para não perder o foco'.