Wittgenstein dizia que não tinha orgulho das coisas que aprendeu, mas do esforço que fez para aprender. Lembrei-me da citação porque leio, quase todos os dias, notícias sobre a pedagogia moderna, que quer ensinar os jovens pelo jogo, pela superficialidade, sem demandar esforço.
A ideia que passam é que o computador é imprescindível à educação, nestes novos tempos. Assim, um governo que dê de presente computadores a alunos dá a impressão de que está fazendo um grande bem educacional, e com isso ganhará votos.
Nem é importante se preocupar com a falta de vagas nas escolas. Muitas não têm água e nem banheiros. Ausência de sinal de internet é só um detalhe. A Secretaria da Educação do nosso Estado, só conseguiu preencher 500 das 2.900 vagas abertas para professores temporários. E são precisos outros 15 mil novos docentes. A Folha nos mostra que 14 mil crianças ficaram sem vagas para estudar no 1º Ano Fundamental.
O governador Tarcísio de Freitas chegou a anunciar que a rede pública de ensino de São Paulo adotaria a pedagogia das plataformas digitais. Conta, para tanto, com o secretário da Educação Renato Feder, mais conhecido por ser sócio da Multilaser, empresa de eletroeletrônicos e informática. Chegou a anunciar que dispensaria os livros didáticos impressos pelo Ministério da Educação, migrando para as plataformas eletrônicas.
A repercussão foi muito negativa. Para corrigir, o governador apressou-se em dizer que "Nós vamos encadernar o material e entregá-lo", ou seja, se o aluno quiser estudar digitalmente, ele vai poder, se ele quiser estudar no conteúdo impresso, ele também vai ter essa opção. São Paulo tem mais de 3,5 milhões de alunos e cerca de 210 mil professores.
A Secretaria da Educação, na quarta-feira, já mandou instalar aplicativos nos celulares particulares dos professores e alunos sem autorização, com nomes, notas, frequência escolar. Uma violação à privacidade e segurança tecnológica de professores e estudantes.
O episódio é menos importante do que a lambança do Ministério da Educação, fruto da correria para "modernizar" o ensino. Em 2019, abriu licitação no valor de R$ 3 bilhões, para compra de laptops para 355 escolas do país.
Pela planilha, uma escola de Itabirito (MG) receberia 30 mil desses eletrônicos, ou seja, 255 laptops para cada aluno. O erro foi tão grosseiro que o Ministério Público nem teve como acusar os autores, por má fé.
Os kits robótica, comprados por R$ 200 milhões com o dinheiro do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, envolveu o presidente da Câmara Arthur Lyra em investigações da PF. Todo o trabalho da polícia, para levantar o paradeiro de 20 mil celulares e 97 mil notebooks, acaba de ser anulado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, pela não observância do fórum privilegiado a que tem direito o deputado.
A inclusão digital tem o seu lado bom, desde que feita em salas apropriadas, com um intermediador que dê manutenção à rede e aos equipamentos. A utilização precisa ser controlada porque será feita por crianças e jovens. É necessário orientar sobre conteúdos inadequados para a idade do usuário, para as finalidades da sala.
O secretário Feder, no seu entusiasmo, falou da possibilidade de distribuir 40 mil smartphones apreendidos pela Polícia Federal, para as crianças pobres poderem se instrumentalizar. Imagino a festa para os assaltantes, na saída das escolas.
A Coreia do Sul, já entendeu que, sem as humanidades, não temos a possibilidade de fazer progredir a ciência e a tecnologia, porque elas necessitam de criatividade, que vem exatamente da fantasia e da imaginação. Lá, a recomendação aos jovens é para diminuir o uso de celulares; que reservem um tempo para refletir, se fechar num quarto e ler na solidão e no silêncio.