10 de julho de 2026
OPINIÃO

Vacina jurídica e Apagamento indígena: mais do que linguagem

Por Elaine de Souza |
| Tempo de leitura: 3 min
A autora é jornalista, especializada em Linguagem, Cultura e Mídia pela Unesp

Volto a este espaço para falar de dois assuntos caros para a vida em comunidade. O primeiro é conduta ética. O segundo diz respeito aos saberes humanos. Os dois temas me chegaram por vias diferentes e em duas expressões criativas e bem aplicadas do ponto de vista da linguagem: "AI" num trocadilho com o tema queridinho dos últimos meses (IA) e "vacinação jurídica" - usada por um assessor jurídico da Famesp para discorrer sobre temas e condutas que precisam constantemente de revisão ou imunização. É claro que a mente inquieta que habita aqui juntou os dois e decidiu compartilhar as reflexões com você.

Vou começar pela "vacinação jurídica", que provavelmente foi cunhada pelo advogado bauruense Hugo Tamarozi (já que dei um Google com a expressão entre aspas e não achei nenhuma referência com a mesma semântica). Além de criar uma conexão com o público de sua palestra, o advogado quis mostrar que é preciso se "imunizar" de comportamentos antiéticos assim como nos imunizamos periodicamente de determinados vírus, com novas doses de vacinas atualizadas.

E como fazer isso? Com doses repetidas de informação embasada, no caso do foco dele, no Direito Jurídico. Vacina jurídica contra crimes como racismo, sexismo, assédios morais e sexuais, etarismo, corrupção e todo tipo de conduta que um ser humano pode adotar contra alguém no cotidiano dos relacionamentos. Eu, particularmente, amei a metáfora.

Se as vacinas são atualizadas para combater novos vírus e mutações dos velhos, nós, ser humaninhos, também precisamos de doses recorrentes de informação e de consciência para simplesmente sermos melhor que ontem e para não infringirmos regras, normas e espaços alheios. Confidencialidade, uso de imagem, limites e sutilezas sobre o que saber a respeito da saúde de um ente querido ou de um estranho - tanto faz - são temas sobre os quais precisamos refletir e nos atualizar.

Não há mais espaço para dizer "ah, mas lá vem a galera do politicamente correto". Não. Não é não. E não há mais espaço para gente que não respeita isso. E todo ato, como sempre, implica desafios. E consequências.

Daí, não tem jeito: vacina jurídica neles! Em nós! Imunização consciencial já. E é nesse clima de campanha que outra expressão extremamente urgente foi divulgada na semana passada por uma empresa chamada Scientia Consultoria Científica: AI, que quer dizer Apagamento Indígena, num trocadilho à tão incensada IA - inteligência artificial, que tem ditado comportamentos, contribuído um tanto com a sociedade e substituído funções de humanos, por outro lado.

A Scientia - empresa especializada na realização de atividades de pesquisas em todos os ramos do patrimônio cultural e educação patrimonial - encampa o movimento #AiApagamentoIndigena e levanta uma questão essencial: os saberes humanos. Identificaram que as ferramentas de inteligência artificial não têm alimentação suficiente para reconhecerem os povos originários. O convite do movimento é para que artistas brasileiros incluindo indígenas alimentem as IAs com representações das inúmeras etnias indígenas locais.

O movimento rasga uma outra verdade: nós, brancos armados de tecnologias, que habitualmente nutrimos essas "maravilhas" alimentando sistemas de informações com hábitos, práticas e consumos, sabemos nada ou quase nada dos povos originários. Consumimos uma pílula cultural aqui outra ali, mas não sabemos nada ou quase nada das populações indígenas e de suas vidas tão plurais.

Quando uma criança faz uma busca no Google pelo termo Ashaninka, por exemplo, pode pensar que os 1.310.000 de resultados disponíveis surgiram ali magicamente. Ou que a expressão "Vacinação Jurídica" não existe porque não aparecem resultados. Mas a verdade é que a vida pulsa aqui fora, precede as telas e as inteligências artificiais.

E nós precisamos tomar pelas mãos essa responsabilidade ou continuaremos dando luz ao que nossos estreitos olhos enxergam e apagando vidas que escapam por rios e matas e bravamente resistem e existem.