Amigos de sala são amigos. Disso não tenhamos dúvida. Afinal, abrimos-lhes a porta do santuário que toda casa é. Receber amigos é um ritual de fraternidade, quase um sacramento. Mas os amigos de cozinha... Ah, os amigos de cozinha! Não que sejam melhores, eles são apenas muito mais. Especiais.
Deliciosamente invadem a nossa casa, conhecem de cor o endereço da cozinha. intrometidos, roubam-nos o avental. Enxeridos, encostam a barriga nas panelas fumegantes, farejam o tempero da fumaça, testam, com suspense, a colher na língua. Depois, com arrogância dos chefs internacionais, palpitam na receita. Bisbilhotam gavetas, fuçam condimentos, escancaram a geladeira.
Ruminam tira-gostos, bebem a nossa pinga, também o nosso vinho mais caro. Gargalham, falam gritando, cantam e dançam, enchendo a cozinha de uma alegria, a mais quente, a mais fumegante, a mais saborosa possível.
Claro que eu fico feliz ao receber os meus amigos de sala. Mas a sala tem compromissos de recato, obrigando sofás e poltronas a amaciarem as maneiras, tudo fica dentro das medidas. Na cozinha, é diferente, a vida ferve. Confesso constrangido que, ao abrir a porta para os meus amigos de cozinha, eu me transbordo de uma festa que não cabe em mim. Como me conter, se Baco sentará à nossa mesa e beberá conosco? Sim, ele mesmo, o mitológico deus do vinho, das bacanais romanas, das orgias de línguas e de bocas lambendo e mordendo nacos de apetitosa carne. Impossível me conter se a frigideira escandalosa já repica feito tamborim. É assim que ela me avisa que chegou o carnaval. Ai, que vida boa, olerê! Ai, que vida boa, olará! O estandarte do sanatório geral vai sambar!