09 de julho de 2026
OPINIÃO

Não há com que se preocupar

Por Paulo Cesar Razuk |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica Faculdade de Engenharia da Unesp – Bauru

Todas as cúpulas internacionais para discutir o clima fracassaram diante do desafio de, pelo menos, estabilizá-lo. Parece que não há como vencer a vampiresca fome de lucro da indústria dos combustíveis fósseis e daquelas que, ao longo de seu processo de enriquecimento, criaram um destino sombrio para a humanidade. Parece que não há como vencer a sempre crescente necessidade de abastecer a população de alimentos e de conforto tecnológico.

Nós, homo sapiens, chegamos tarde por aqui e nos achamos donos da Terra e no direito de maltratá-la, como se ela não fizesse parte de nós. Não podemos nos esquecer que nosso corpo nos foi dado pela Terra e pelo cosmos. Existe um Você, mas, Você é feito de elementos que não são Você. Sem minerais, plantas e animais não poderíamos existir.

Segundo estudos climáticos grandes territórios podem se tornar inabitáveis no sul da Ásia, no Oriente Médio, na Austrália e em boa parte da África. A China tem problemas ecológicos graves e a Rússia é altamente vulnerável às mudanças do clima e ao contrário da China, faz muito pouco a respeito. Por uma cruel ironia da história, no frigir dos ovos, o sul global sofrerá mais que os países do norte que mais se dedicaram a destruir o planeta.

Ao derrubar florestas tropicais, alterar a composição da atmosfera com gases que provocam o efeito estufa, ao acidificar os oceanos, estamos colocando em risco nossa própria sobrevivência. Mas, os otimistas garantem que a engenhosidade humana suprirá qualquer desastre que essa mesma engenhosidade venha a desencadear. E quando o aquecimento global se tornar uma ameaça grave, basta espalhar sulfato na estratosfera para refletir a luz do sol de volta para o espaço, ou lançar gotículas de água sobre o oceano Pacífico para adensar nuvens. No entanto, se nada disso funcionar e as coisas piorarem, é só construir cidades em Marte ou nos satélites de Júpiter e Saturno (Titã ou Europa) ou em qualquer outro pedaço de matéria inabitado. Não há com que se preocupar...

Enquanto isso, a indústria bélica, bem estabelecida nos países centrais e em alguns países periféricos, mal consegue dissimular seu deleite com polpudos contratos de trilhões de dólares para o desenvolvimento de formas de destruir tudo o que existe. Uma indústria que fomenta a guerra no quintal dos outros para dar vazão a seus estoques ultrapassados de armamentos. Esses recursos que poderiam ser direcionados para a proteção da Terra e para elevar o nível de vida da população, se transformam em barulho, fumaça e desgraça. A crise ambiental e sua irmã gêmea, a crescente possibilidade de uma crise nuclear, são acontecimentos únicos na história humana e representam uma verdadeira crise existencial.

A soma de conflitos e da guerra instigada por interesses escusos, com a mudança climática, resulta na migração humana decorrente, principalmente, da fome e da falta de perspectivas de vida. Há um processo migratório sem precedentes. São milhões que fogem da violência ou dos impactos do aquecimento global. Os países ricos estão em polvorosa porque uma fração desses refugiados pode respingar sobre eles e "profaná-los".

A União Europeia direciona fundos à Turquia para que o país impeça, aqueles que fogem do Oriente Médio, de chegar até eles. Como se os europeus não tivessem responsabilidade alguma sobre isso. Dentro desse contexto, é bom lembrar que a Europa desempenhou e ainda desempenha, um papel histórico na criação de mazelas no continente africano e hoje procura, a todo custo, interromper o êxodo de refugiados desses países. Algo equivalente os Estados Unidos impingiram a muitos países da América Central, Iraque, Líbia e Síria, fomentando guerras ou promovendo duras sansões econômicas.

Talvez a imagem da Terra, olhada a distância, inspire as pessoas, as sensibilize e traga a compreensão de como as coisas aqui se entrelaçam numa ecologia finita. Aquela névoa azul, extremamente fina, que circunda a Terra é toda a atmosfera que temos e a maior parte do oxigênio disponível para respirar, está contido nos primeiros 1500 metros do céu. Quem sabe ao olhar essa imagem os seres humanos poderão entender o sentido da vida de um modo um pouco mais sofisticado a fim de preservar o que nos resta, porque não há plano B.