08 de julho de 2026
OPINIÃO

Quem é você?

Por Alexandre Benegas |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor, autor de artigos didáticos e coautor de antologias da Língua Portuguesa

De que valeu? Pois é. Coisas de Chico Buarque que diz tudo o que deveríamos bem cedo ouvir. Na canção "Construção", retrata uma vida em estado de proparoxítona: flácida. De descrição ao desvalido. De uma monotonia bocejante e sobretudo gratuita. "Beijou sua mulher como se fosse lógico. Subiu a construção como se fosse máquina. Ergueu no patamar quatro paredes sólidas. E o pior, morreu na contramão atrapalhando o público". De que adiantou vida assim embotada!? E você? A rotina veste o que o conformismo reveste. Deram-lhe um nome, sobrenome, RG, CPF, título de eleitor, carteira nacional de habilitação, domicílio, família, pátria, leis, hino e bandeira. Deram-lhe também idiomas, normas gramaticais e o pior, fórmulas matemáticas. Você é alguém, isso mesmo, apenas alguém entupido de informações livrescas.

De que vale a direção se caminha conforme o vento. De que valem os sonhos se ainda anda com lenço e documento. Você, uma ovelha a mais no gordo rebanho de tantas marias. Toyotismo? Fordismo? Pouco importa. Tua cara, a cara da multidão.

Por outro lado, em teu íntimo, você esconde segredos inconfessáveis. Algumas, verdadeiras fissuras incalafetáveis. E tuas vertigens? Teus abismos? Espaço indevassável cujo acesso e chave você não permite a ninguém. Nele, sim lá dentro, você acolhe tuas loucuras. Nele, confesse, você ainda alimenta todos os sonhos e anseios mais febris. Afivelado em teu eu, você acena para os teus planos, tece tua revolta, procurando encontrar tua própria cara. Luta difícil e dolorida. Pudera. A máscara acostumou com teu rosto, não quer mais dele desgrudar. Máscara que o(a) engrandece. Capaz de medalhá-lo(a) por momentos. Máscara que o(a) difere diante de um igual. Também, você sabe que a gente só percebe o quanto a roupa da festa mentia, o quanto da alegria pouco sorria depois que o vinho acabou.

Enquanto isso, você duela com teus conflitos, tuas dores. Você - coitado(a)! - é todo mundo. Não é ninguém na fila do pão. Dividido(a), você quer voar. Experimentar voos migratórios. Esquece que teus pés continuam enraizados na lama. Esquece a vida engaiolada. Quer conhecer as profundidades subterrâneas. Negligencia que tuas asas recusam-se a tal viagem. Novamente entre Deus e o Diabo, você fica inerte, vacilante. Conflitos, indagações sem respostas. Tradições familiares te ordenam o que fazer. Anúncios publicitários te convidam o que beber, vestir e comer. A nota vermelha da Redação exibe o que reescrever. De repente, num lance provocado, contra chuteiras inconsequentes, braços perdidos na precipitação da disputa pela bola, ou mesmo a boca inflamada que açoita há o braço que verticaliza expulsão. Cartão vermelho. Na rua, na avenida, o semáforo em sua vermelha proibição. Tudo proibido. Tudo interditado.

O celular toca cortando o fio frágil da tua ordinária reflexão. Mensagens de sempre. Costumeiras curtidas. Comentários protocolares que lustram a postagem circunstancial. Um coraçãozinho em tua foto dopamina tua vontade de feicibuquear. Tua curiosidade aumenta. Você rola infinitamente a linha do tempo sem buscar algo determinado. As mais vistas, as mais comentadas. Harmonização facial do Stênio Garcia. Ex-BBB Felipe Prior é condenado a 6 anos de semiaberto por estupro cometido em 2014. Idoso que usou 'azulzinho' afirma que viagrou milagres e fez renascer o que a vida não tinha mais. Mulher dá à luz gêmas sem saber da gravidez e uma das bebês cai na privada.

Você, um pronome oblíquo 'mim'. Quiçá, um dia, torne-se o pronome de caso reto 'eu'. Hora de dormir. Amanhã, com ou sem reflexão, no mesmo horário você confere as próximas novidades.