Dizer que é preciso unir esquerda e direita é no mínimo uma expressão inocente, porque os princípios que separam os dois lados são deveras antagônicos. Mas a urgência de suavizarmos a polarização política no Brasil é um tema importante neste momento.
Nada parece ser capaz de amenizar a guerra entre as partes, numa reedição meio bizarra de outros períodos críticos da história brasileira. É um ambiente muito parecido com aquele agosto final do Getúlio Vargas, em 1954, ou com o início de 1964. Vivemos num perpétuo 54, ou num 64 sem fim.
Também naquela época, boa parte dos mesmos dilemas de hoje opôs duas metades da sociedade. Algumas pautas tinham outros nomes - como nacional-desenvolvimentismo, getulismo, Reformas de Base -, outras ainda são pautas constantes com o mesmo nome - como salario mínimo, carteira de trabalho e previdência social obrigatória, reforma agrária, que por incrível que pareça ainda são pautas, pois tem gente que é contra. Por outro lado, alguns temas ainda nem existiam, como o meio ambiente - mas não é difícil arriscar qual seria a posição de cada metade de então nessa questão.
Como hoje, eram forças conservadoras contra forças progressistas. É verdade que o caso do Getúlio é meio ambíguo, pois ele governou como ditador por um grande período, mas também é verdade que ele terminou seus dias como representante da metade que era contra o conservadorismo.
E mais verdade ainda é que o conservadorismo daqueles tempos do Getúlio era esteticamente menos ruim. A extrema direita era brega também, como agora, mas havia uma direita, vamos dizer, chique, sábia. Gente que lia muito, que admirava arte, que escrevia, que financiava Ciência, que se orgulhava de ser inteligente.
As mentiras (no Português atual, "inverdades") do jornalista Carlos Lacerda, usadas como método em sua Tribuna de Imprensa, foram o germe dos gabinetes do ódio atuais, das Fake News como estratégia, e foram replicadas com mais sucesso nos episódios de 1964 - pois em 64 os militares venceram, ao contrário de 54, quando perderam, mesmo com o suicídio de Getúlio.
Mas eles já estavam lá (os militares), mesmo que divididos, pregando o golpe militar nos dois episódios que antecederam a sua "ressurreição" atual como salvadores da pátria.
Aliás, o famoso romance de Rubem Fonseca, "Agosto", não deixa nenhuma dúvida quanto às incríveis semelhanças entre o que aconteceu em 1954 e o que acontece hoje, principalmente quanto à natureza dessa divisão da sociedade de ontem e de agora. O modus operandi é o mesmo.
Até o Centrão daquela época agia exatamente como o Centrão de hoje, pulando de barco em barco, de governo em governo, em busca de bons negócios garantidos pela política. Dois lados que se odeiam, um pântano (Centrão) que só quer dinheiro, exatamente como em nossos dias.
Mas nem tudo está perdido nessa arena raivosa de trevas entre a esquerda e a direita. Há uma luz no fim do túnel, um ponto de conciliação ao alcance dos parlamentares, que pode unir a esquerda progressista e a direita conservadora. No mês de maio, a deputada federal Duda Salabert, do PDT, apresentou um projeto de lei que propõe estabelecer que, durante três meses do ano, o presidente, vice-presidente, ministros, deputados, senadores e juízes do STF e STJ ganhem o mesmo salário do piso dos professores da educação básica.
O salário atual dos ministros do STF é de R$41.650,00. O de parlamentares e do presidente é de R$39.293,00. Já o piso dos professores é de R$4.420,00. Segundo a deputada, seria uma forma de chamar a atenção sobre a disparidade dos salários entre professores e altas autoridades no país.
Pronto. Para além das tramas golpistas do romance de Rubem Fonseca, do golpe militar de 1964, dos acampamentos pedindo intervenção em 2022, da minuta do golpe e da invasão dos prédios dos Três Poderes em Brasília, temos enfim um ponto pacífico entre as duas metades da política e da sociedade.
Afinal, quem terá coragem de votar contra um projeto desses? (Obs: contém ironia, mas pressione o seu representante em Brasília para, por via das dúvidas, se o projeto prosperar, votar a favor).