Objeto de estudo em áreas que vão da ciência à arte, psicologia ou filosofia, a felicidade está no centro das ambições humanas. Mas, afinal, existe fórmula para ser feliz? O sociólogo espanhol Luis Gallardo, presidente da Fundação Mundial da Felicidade (World Happiness Foundation), garante que sim, e que ela já foi descoberta há muito tempo. A questão, diz, é que muita gente a desconhece - ou não se atreve a praticá-la.
Qual questão ligada à felicidade o deica mais feliz em responder?
Luis Gallardo - "Como posso te ajudar?". Porque isso reflete interesse, empatia, compaixão. E está relacionado a algo que pesquisas já mostraram, que é como a felicidade passa por criar uma relação. Quando uma pessoa oferece ajuda a outra, cria um vínculo. É uma das formas de ativar a felicidade.
E o que é felicidade? A definição não pode variar de uma pessoa para oura?
Luis Gallardo - Totalmente. Por isso é preciso distinguir entre felicidade e ativadores da felicidade. Uma pessoa pode ativar a felicidade ao estar no campo, na natureza, ao abraçar uma árvore, estar com um amigo, conversar, comer chocolate, correr, viajar. Todas são atividades que nos fazem entrar em um estado de fluidez, de admiração, de paz, que nos ajudam a conectar com a felicidade que temos. A felicidade é o óleo do motor. Todos nascemos com ela, é parte do nosso ser. Mas precisamos ativá-la.
Ser feliz, então, é uma escolha?
Luis Gallardo - Sim, para quem pode escolher. Há pessoas que não têm essa facilidade porque podem ter problemas mentais, depressão, podem ter sofrido traumas muito fortes e não conseguir tomar decisões. E essas pessoas precisam de ajuda. A felicidade tem a ver com responsabilidade social. Quando estamos perto de pessoas felizes, criamos mais, inovamos mais, se criam ambientes amigáveis para todos, de desenvolvimento, segurança. É um direito humano.
Elementos como ganância e exibicionismo no mundo atual não prestam um desserviço à felicidade?
Luis Gallardo - O que existe é uma ditadura do medo. Há pessoas que têm medo de serem felizes. A humanidade decidiu definir o sucesso através do poder, do dinheiro, da fama. E para chegar a ele se adotam as três piores ações para a felicidade: comparar-se, queixar-se e competir. Me comparo para ver quem tem mais poder, fama ou dinheiro, me queixo se não sou eu, e compito para ter isso. Olha o mundo que criamos. Um mundo que nos leva de forma rotineira a um estado de infelicidade, de carência.
O senhor escreveu sobre o conceito de "Happytalismo" como um novo sistema para um mundo mais feliz. O que ele propõe?
Luis Gallardo - Ao longo da História já nos organizamos em muitos sistemas, em diferentes épocas. O "Happytalismo" é um sistema de filosofia da felicidade. Se o que o ser humano busca de forma consistente é a sua felicidade e a dos demais, por que não nos centramos nisso? Trata-se de buscar maneiras para que o maior número de pessoas possa ser feliz pela maior duração possível. É menos sobre acumulação de capital financeiro, como consumidores, e mais sobre chegar a um estado de liberdade de medos, de consciência mais elevada sobre o que acontece ao redor, por quê e para quê, e entender a felicidade, para compartilhá-la.
Como chegar a isso? Existe fórmula para a felicidade?
Luis Gallardo - Existe, e já foi descoberta. Mas muita gente não conhece. Há muitas formas de alcançar um estado de calma, paz, esperança, perdão, compaixão. Elas ajudam a gerir nossos pensamentos e emoções, integrando espírito, postura, intenção. São fórmulas e possuem muitos ingredientes, como comer bem, dormir, rodear-se de pessoas positivas, não se ater ao passado, respirar, contemplar, meditar, estar na natureza. Pesquisamos mais de mil ações que funcionam para diferentes culturas, em diferentes momentos. Com uma delas já se consegue avançar de forma significativa na felicidade. Se quero estar bem fisicamente, por exemplo, não é sentado no sofá que vou conseguir, terei que caminhar, fazer exercícios. A felicidade é assim, é uma técnica, e há que praticá-la. Tanto faz quem você é, mas é preciso escolher algo que funcione para você.
Quais são as ações principais que ajudam a ser feliz?
Luis Gallardo - A mais básica, já comprovada em pesquisas: dar, se colocar a serviço dos demais. Quanto mais me dou, mais ajudo, mais feliz sou. Quem faz isso alcança a felicidade mais rápido e por mais tempo do que quem não faz. Depois, dar a mim mesmo. É principalmente gostar de si, ter compaixão, perdoar, ser amável consigo mesmo. E dar-se de forma consciente. Hoje vou cuidar de mim. Vou agradecer por estar vivo, e vou passar esse sentimento ao meu corpo, meus braços, minhas mãos. Outra coisa é uma respiração consciente. Nascemos com uma inspiração e morremos com uma expiração, a respiração é o que conecta o nascimento à morte. Mas muitas vezes nos esquecemos disso. Quando relaxo e respiro profundamente, aumento a circulação de oxigênio, respiro melhor. E já se sabe que uma técnica de respiração saudável ajuda a gerir nossas emoções. Entra aí outra ação importante, que é prolongar essa respiração. Há pessoas que não têm paciência sequer para respirar. Uma respiração profunda nos conecta com nossos pensamentos, que por sua vez influenciam nossas emoções.
A felicidade pode ser medida pela ciência?
Luis Gallardo - Existe toda uma corrente de psicologia positiva, educação positiva e ciência da felicidade que estuda os muitos elementos que influenciam na felicidade. Há várias pesquisas sobre amabilidade, perdão, compaixão, em que se mede até que ponto ser mais amável ou agradecer, por exemplo, promovem felicidade. Muitas universidades ao redor do mundo pesquisam os impactos do bem-estar, da meditação e do mindfulness na nossa saúde. Já sabemos como uma mente sã facilita a entrada em estados de fluidez e felicidade. Melhor saúde mental, melhor felicidade, e vice-versa. Conceitos como compaixão, fluidez, plenitude, atrelados à felicidade, também são muito associados à espiritualidade.
Existe relação entre elas?
Luis Gallardo - A espiritualidade é a conexão com nosso ser energético, ela busca entender o que há além do nosso corpo físico e do entendimento racional. Se definimos espiritualidade assim, há muitas pesquisas que apontam que pessoas com essa conexão são mais felizes.