09 de julho de 2026
OPINIÃO

Para Beatriz Haddad Maia

Por Paulo Neves |
| Tempo de leitura: 3 min

Uma grande mulher brasileira. Acompanho sua carreira antes e após o doping em 2019 pelos jornais, programas esportivos e comentários de tênis. Uma carreira de luta, sofrimento, de ataques da imprensa especializada, mas acima de tudo de vitórias e também derrotas. Você é uma mulher vitoriosa e eu adoro mulheres assim guerreiras, sem tempo para pensar nas derrotas, basta examinar o rosto da Bia na vitória sobre Ons Jabeur, da Tunísia, e a derrota para Iga Swiatek, da Polônia. Aquele rosto marcante, sóbrio, sabendo o que ainda está por chegar este ano ou o ano que vem grandes conquistas. Esperemos.

Acompanho tênis pela televisão. Fui ao BTC já adulto uma vez na vida para assistir a uma partida de tênis levado pelo amigo dr. José Guedes. Uma única vez e ponto final. Minha mãe não tinha condições financeiras de comprar um título ou ficar sócia do BTC. Frequentei o clube umas 7 vezes ao longo desses 75 anos, como convidado. Sem traumas. Sem remorsos. Sem melindres.

O tênis entrou na minha vida em 1968 quando escrevia uma cena para a peça "Errare Humanum Est", com Edson Celulari, apresentada no cine BTC. Da pesquisa saiu esse texto: "Haverá esporte mais solitário e decisões solipsistas que o tênis? São horas e horas sem falar.Tensão e atenção. Pergunta e resposta, frases curtas. O tênis, prestem atenção, não é conversa, encontro ou colóquio, no máximo um abraço ou um cumprimento frio. Oposição de opostos. É confronto imediato. Nada de defesa verbais, o juiz raramente aparece e é respeitado. Não interfere em nada no contexto da partida. Nada de grandes teses. Poucas roupas extravagantes, gostava mais quando a cor usada era branca, era um sinal de paz. Algumas coisas mudaram. As frases são curtas e cortantes. Cortadas e tiradas de efeito. Frases de lá respostas de cá, uma de cada vez na quadra de saibro, rápida ou de grama... estilo telegráfico, que pouca gente conhece hoje em dia. Ganha ponto quem fizer a frase mais aguda. A crítica mais rude. A bola melhor jogada. O ponto mais bonito O tênis e uma troca de interjeições Já repararam que o tênis são duas pessoas brigando de morte, numa rua deserta, sem a presença de PM. São eles, ninguém mais. Uma perde a outra e é aplaudida. Horas e horas. Quando começa o jogo, no primeiro set, o tenista mostra que é um espetáculo transmitido para mundo inteiro de duas solidões, se enfrentando de um lado uma representante da África (Tunísia), a única do continente com suas dificuldades, de sobreviver violência, fome e de outro Bia Haddad, suspensa 2 anos por doping. As duas apresentaram um tênis de alto nível. Afinal, não tem empate no tênis, não tem metafísica. O tênis é zen. Aqui e agora. Ação pura. Há silêncio e respeito na plateia. Chego à conclusão que o tênis é a mais terrível expressão tornadas esporte e beleza".

Que jogo estranho, por isso, meu respeito, minha torcida, minha admiração, meu carinho para essa grande mulher brasileira Bia Haddad Maia.