09 de julho de 2026
ENTREVISTA

Entrevista da semana: Rafael Santana de Lima

Por Tisa Moraes |
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução
Rafael Santana de Lima em entrevista para o JC.

Seja como jornalista, agente público ou em trabalhos voluntários, Rafael Santana de Lima, 67 anos, mantém a luta, mesmo aposentado, para garantir direitos aos bauruenses, especialmente os da região do Mary Dota. Nascido em Borborema e criado em Novo Horizonte, mudou-se ainda jovem para a 'Sem Limites' e construiu forte identidade com bairro.

Em razão disso, fundou, junto com sua esposa, Cristina Ramos, o jornal reivindicativo Zona Leste News, que contribuiu, entre outros feitos, para a implantação de uma Base da PM nesta região. A habilidade para a comunicação foi influência do pai, o radialista Joaquim Santana, que também foi compositor e inspirou o filho a mergulhar no universo da música.

Rafael embalou carnavais, fez serestas e shows de voz e violão, além de compor paródias, o que o fez ficar conhecido como o "Juca Chaves de Bauru", alcunha dada pelo professor Duda Trevizani, do Preve. Por meio da música, mais uma vez, buscou fazer o bem ao organizar uma live durante a pandemia, em que reuniu 154 músicos com o objetivo de arrecadar fundos a estes profissionais.

Na cidade, trabalhou no Banco Itaú e na Trena Copiadora, até ser convidado para atuar como assessor parlamentar e, em seguida, assumir a Diretoria de Abastecimento da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra). Por sua trajetória de dedicação à cidade, recebeu da Câmara Municipal, no fim do mês passado, o título de Cidadão Bauruense. Nesta entrevista, Rafael - que é pai de Raphaela, lsabella, Gabriella e Carla Cristina - recorda passagens especiais de sua história. Leia, a seguir, os principais trechos.

JC - Assim como você, seu pai também atuou em comunicação e música. Ele foi sua maior influência?

Rafael - Ele era gerente de uma rádio e vereador em Novo Horizonte, onde passei minha infância e adolescência. Eu tinha entre 10 e 11 anos, quando, junto com meu irmão Roberto, fui trabalhar na Gazeta da Tarde, de Novo Horizonte. A gente escrevia e entregava o jornal nas casas. Além disso, meu pai foi compositor de canções de artistas famosos, como Cascatinha & Inhana, Cacique & Pajé, Belmonte & Amaraí. Ele é meu grande ídolo e carreguei essa herança musical.

JC - Como foi o início da sua trajetória em Bauru?

Rafael - Ainda em Novo Horizonte, aos 14 anos, fui trabalhar nas Casas Pernambucanas. Até que uma colega do meu pai, que dava aulas na USC, falou que o banco Itaú estava contratando em Bauru. Fiz um curso, fui aprovado com nota 10 e vim morar aqui sozinho, com 18 para 19 anos. Fiquei quase 18 anos no banco. Neste período, uma noite, fui ao Posto Jama e um cliente pediu uma música que a banda que estava se apresentando não tocava. Então, um conhecido disse que eu sabia cantar. Tremi na base, mas subi, cantei e foi um sucesso. Isso foi em 1991.

JC - A partir de então, a carreira deslanchou? E por que ficou conhecido como o "Juca Chaves de Bauru"?

Rafael - Sim. Montei uma banda, chamada Vira Brasil, e começamos a tocar no Jama, sempre lotado. Ao mesmo tempo, continuava trabalhando no banco. Também fiz muitos bailes de Carnaval e serestas por toda a região. Quando já estava na prefeitura, iniciei um projeto de MPB, voz e violão, e me apresentava quase todas as noites. Além disso, compus quase 500 músicas e paródias, o que levou o professor Duda Trevizani (já falecido) a me chamar de "Juca Chaves de Bauru". Fiz muita paródia sobre a cidade, sempre em tom crítico, além de homenagear algumas personalidades do município.

JC - Em que momento entrou na política e assumiu um cargo na Sagra?

Rafael - Após o primeiro ano do governo Rodrigo Agostinho, o vereador Batata, que me conhecia de um grupo de choro, me convidou para ser assessor dele na Câmara. Fiquei seis meses, até ser convidado para assumir a Diretoria de Abastecimento da Sagra, na época em que o Chico Maia foi secretário. Fiquei como diretor por 11 anos, período em que tivemos muitas conquistas. Criamos o Departamento de Estradas Rurais, fizemos o escritório para o Incra, aumentamos o número de feiras livres de 26 para 42. Fizemos a Feira do Produtor Rural, a Feira da Reforma Agrária, além de ampliar as feiras noturnas, como a do Parque Vitória Régia, que foi uma ideia minha e se tornou um sucesso.

JC - Neste período, você também teve um jornal dedicado à zona leste, correto?

Rafael - Como eu sou de lá, minha esposa e eu fundamos o Zona Leste News, que só parou com o início da pandemia. Era um jornal reivindicativo, mensal, que foi mantido por 11 anos, com 10 mil exemplares distribuídos gratuitamente à população. A gente 'pegava no pé' e conseguimos levar para a zona Leste uma agência do Banco do Brasil, a Base Leste da PM e a primeira praça pública do Mary Dota. Durante a última campanha eleitoral municipal, quando não tinha mais o jornal, criei um canal no YouTube e minha filha Gabi e eu fizemos entrevistas com 80 candidatos a vereador por Bauru. Tivemos mais de 300 mil visualizações.

JC - Em quais reivindicações mais você se envolveu, que tiveram resultado?

Rafael - São muitas. Como exemplo, posso citar o pedido de socorro da saudosa dona Olga Bicudo, da Apae, quando a associação perdeu o direito de fazer o teste do pezinho. A entidade corria risco de fechar as portas. Descobri que o deputado Vaz de Lima tinha enviado uma emenda parlamentar para a Apae de Rio Preto e, coincidentemente, ele viria na semana seguinte a Bauru. Conseguimos que ele fosse visitar a Apae e, seis dias depois, ele garantiu R$ 450 mil à instituição. Além disso, lutei para reverter a decisão em que alunos acima de 27 anos não podiam mais continuar frequentando a Apae.

JC - O que te motiva a fazer este trabalho?

Rafael - Tenho gratidão enorme por tudo que Bauru me deu. Fui recebido com o maior carinho e, aqui, fiz minha vida. Devo tudo o que tenho à cidade. E, no período em que fiquei no poder público, fiz cursos de capacitação, expandi minha rede de contatos e construí minha credibilidade. Mesmo já estando aposentado, tudo isso me permite continuar fazendo coisas pela população. Sinto que não estou fazendo mais do que minha obrigação. Enquanto eu tiver saúde, não pretendo parar.