Lorenzo di Bonaventura, o produtor de "Transformers", tinha um problema nas mãos no começo de 2019. A franquia inspirada nos brinquedos da Hasbro se via diante de uma sequência e um derivado que renderam os piores desempenhos na bilheteria desde o seu salto ao live-action, em 2007.
"Transformers: O Despertar das Bestas", que chegou aos cinemas na útima semana, é o reinício simbólico da história dos robôs que se transformam em carros - um que Bonaventura alimentou desde a gênese do projeto.
É a solução para uma situação delicada, já que os filmes anteriores despertaram reações opostas. "Transformers: O Último Cavaleiro", a despedida do diretor Michael Bay do comando da saga, foi massacrado pelo épico inchado e incoerente; "Bumblebee", primeira aventura solo fora da história principal, foi elogiado pela premissa inocente e desconectada dos outros capítulos.
"A gente tinha um ponto de vista específico", diz o produtor em entrevista. "Queríamos a intimidade de 'Bumblebee' e do primeiro 'Transformers' e a escala maior dos cinco filmes de [Michael] Bay."
A ideia também era manter a continuidade entre os filmes. O novo capítulo se passa nos anos 1990, pouco depois de "Bumblebee" e antes dos outros longas. De velhos conhecidos, só Optimus Prime e o próprio Bumblebee: mocinhos, vilões e personagens humanos são todos inéditos.
Tudo isso ajudou na escolha de Steven Caple Jr. para comandar a aventura. Até porque o diretor tinha passado por algo similar em "Creed 2", de 2018. O filme era parte de uma franquia longeva e em nova encarnação, "Rocky", com estrelas do porte de Michael B. Jordan e Sylvester Stallone em uma história mais ampla.
Essa afinidade ajudou o cineasta a adentrar a franquia. "Quando assumi o projeto, busquei um olhar de fã da série, do que eu queria ver e de quem eu sou", diz o diretor.
Foi assim, para refletir a realidade do mundo no elenco, que Anthony Ramos e Dominique Fishback foram escolhidos.
Pela primeira vez, um ator de origem latina e uma atriz negra são o rosto da franquia - com espaço para tal. Fishback diz que sentou com os roteiristas em três ocasiões só para discutir sua personagem, a arqueóloga Elena. Tanto ela quanto Ramos afirmam que se viram motivados com essa abertura.
"Quando o diretor me perguntou o que queria trazer à série, respondi que eu queria levar o coração", afirma o ator. "Eu queria fazer um filme que fosse mais que robôs explodindo uns aos outros, e que o público se importasse com os humanos."
A decisão mais arriscada de Caple Jr., porém, foi destacar outros grupos de personagens robóticos na trama. O filme traz duas novas facções, incluindo os mocinhos Maximals - que se transformam em animais metálicos, como um gorila e um falcão - e os malvados Terrorcons - versões mais ameaçadoras dos vilões anteriores, os Decepticons.
Eles são o chamariz principal da história, que preserva os Autobots como protagonistas pela conveniência. Em "O Despertar das Bestas", o líder Optimus Prime ainda teme a humanidade e busca maneiras de retornar o grupo para o planeta natal. Mas a procura desperta a guerra com os Terrorcons, que querem fazer da Terra uma refeição para o Unicron - um robô com forma de um imenso planeta.