09 de julho de 2026
OPINIÃO

Chegou a vez dos camelos?

Por Ricardo Martins Soares |
| Tempo de leitura: 2 min
O autor é consultor empresarial da Funcional Competência Empresarial, engenheiro civil formado pela USP; especializado em gestão de recursos hídricos pela Epusp. MBA em Gestão Empresarial pela FGV e especialização em Finanças pela Fundação Dom Cabral

Há quase 10 anos, Ailen Lee, uma famosa investidora anjo dos Estados Unidos, conhecida por aportar recursos em capital de risco, difundiu o termo Unicórnio, para associá-lo às Startups que realmente fossem promissoras, com bons rendimentos e crescimento exponencial. Tal associação foi feita no sentido de se fazer uma analogia entre estas potenciais empresas e o sentido dicionarizado da palavra Unicórnio, que se traduz em um animal raro, de extrema beleza, fabuloso, dotado de corpo de cavalo, cabeça de veado e um forte chifre. Ou seja, algo muito, muito raro. O tempo se passou e hoje podemos avaliar, com maior maturidade, a sustentabilidade das Startups e, em especial, dos Unicórnios.

De fato, muitos analistas e investidores têm percebido a necessidade de mudanças destas empresas, para que elas tenham melhor aderência ao novo perfil socioeconômico, político e financeiro que vivemos. O mundo muda e mudou muito em 10 anos. Talvez a expressão Unicórnio nos remeta a algo pouco tangível, imaginário, uma linha tênue entre a realidade e o sonho. Muitos já questionam a relativa glamourização dos ambientes que cercam a criação das Startups, em parte gerado pelos programas televisivos e incentivos descontrolados que fomentaram o tema.

Diversas consultorias já apontam um índice de mortalidade destas empresas próximo a 90%, em horizontes de 5 anos. O fato é que nem tudo são flores, em especial para os Unicórnios. Talvez exista uma intensidade de sonhos que não encontre paridade na execução, ou ainda aquela base de clientes estimada tenha mudado seu perfil de consumo. Talvez uma solução sucedânea tenha aparecido no meio do caminho. É provável que seja muito difícil manter a coerência, ou seja, se fazer exatamente o que aquele lindo discurso pregava na jornada empresarial rumo ao sucesso. Alguns cabelos brancos podem ser mais do que necessários. Quem pode prever uma pandemia, uma guerra...O fato é que vivemos um ambiente de enormes incertezas e prever e mitigar riscos está se tornando uma tarefa dia a dia mais insana. Estes dias, um grande amigo comentou comigo que estes Unicórnios teriam de ser substituídos por Camelos. Sim, aqueles exóticos animais, que hoje vivem principalmente em parte da África, Oriente Médio e Ásia. Eles podem comer qualquer coisa, chegam a ter três pálpebras para protegê-los das intensas tempestades de areia onde vivem.

A parte interna de sua boca é revestida com uma espessa e dura camada, que evita que os espinhos que são ingeridos lhes causem danos. Podem passar vários dias sem beber água e suas corcovas acumulam gordura caso necessitem. Em 10 minutos, pode beber até 120 litros de água. Este verdadeiro "highlander" dos animais realmente parece ser muito mais realístico e adaptado às intempéries. É um símbolo da resiliência e adaptabilidade. Será que chegou a vez dos camelos?