08 de julho de 2026
OPINIÃO

Há 8 décadas eu sofria bullying

Por Joaquim Eliseo Mendes - Membro da ABLetras- cadeira 29 |
| Tempo de leitura: 3 min

O termo é relativamente novo, mas o fato é antiquíssimo e se perde no tempo desde que criança é criança e o homem é homem. Em minha infância a palavra era "marcação", criando um estado de terror e isolamento ,quase sempre desconhecido pelos nossos pais. Ele ou ela "marcava" alguém para gozar ou judiar.

Realmente ele me marcou em muitas ocasiões e mais uma vez naquela noite em que fui ao circo Garcia usando a entrada que o gerente tinha dado ao meu pai, e em que eu estava sentado comodamente em uma cadeira de local privilegiado.

Naquele universo maravilhoso e alegre do circo, eu sabia que estava sendo "marcado". Perscrutei a arquibancada bem à minha frente e lá não estava ele, mas atrás.

Olhar de ódio, fixo e penetrante como de desforra a algum mal que lhe tivesse causado. Terminado o espetáculo, em sôfrega corrida, procurei a proteção de minha casa junto aos meus pais. Muitas vezes nos cruzamos em minha infância e, verdade seja dita, nunca me agrediu, mas a triste recordação persiste até hoje.

Realidade que vem acontecendo em nossas escolas como também fora e que, infelizmente, nunca deixarão de existir, muito embora medidas preventivas estejam sendo eficientemente tomadas como o botão de pânico, detector de metais, policiamento externo, grupos de pais pelo whatsApp até a suspensão de redes sociais.

A presente onda de violência à escola pública e particular passará, mas o perigo continuará pois, infelizmente, vivemos em um mundo conturbado, tenso e violento A incerteza quanto ao amanhã, ao futuro, muito embora a inocência do aluno criança não o deixe sentir, está no ar.

Assim como ocorreu com a pandemia, esta fase passará, será controlada tendo em vista à eficiência tecnológica e às providencias que estão sendo e ainda serão tomadas.

O importante é que este momento não seja esquecido e que estejamos sempre ligados, todos nós, professores, pais, polícia e órgãos responsáveis. Entretanto, complementações urgentes, imprescindíveis e estruturais se fazem necessárias, presentes e devem ser tomadas .

Não é mais concebível uma escola, seja em qualquer nível contando só com o professor e pessoal administrativo, sem psicólogo e assistente social. O professor não tem condições de, além do seu trabalho profissional, fazer a conexão escola-aluno-família.

Felizmente está se chegando a esse consenso, pois aqui em nossa região dois municípios que são pioneiros já estão admitindo para a rede municipal de ensino esses profissionais.

O primeiro foi Botucatu e recentemente Lençóis Paulista, cujos prefeitos parabenizo e faço votos para que sejam seguidos pelos inegáveis efeitos na segurança e qualidade do ensino. Imaginemos os resultados altamente positivos da conexão professor-psicólogo-assistente social.

Finalizando esta matéria cujos objetivos são alertar, conscientizar e promover, cito outro caso que me marcou - o de uma criativa professora aqui de Bauru que fez uma caixa de segredo orientando e incentivando seus alunos portadores de quaisquer tipos de problemas, tanto pessoais como de família para que, confiantemente escrevessem colocando-os na mesma, Mediante promessa de sigilo absoluto.

Não guardei o seu nome, mas diferentemente daquele que me "marcava", felicito-a pois essa "Caixa de Segredos" poderá colaborar na solução de muitos problemas pessoais e familiares traduzindo em paz para o aluno, escola e família.