18 de maio de 2026
50 ANOS

Entre Deus e o demônio: padre exorcista faz 50 anos de sacerdócio

Por Guilherme Matos | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Guilherme Matos
Padre Guido Mottinelli

Conhecido por ser um dos 30 exorcistas que atuam no País, o padre Guido Mottinelli completará 50 anos de sacerdócio no próximo dia 30 de abril. Um mês após assumir o ofício, em 1973, mudou-se da Itália para o Brasil, onde passou a combater o demônio com a própria fé, há cerca de oito anos.

Para contar sua história, iniciada em 24 de maio de 1947, em Milão, período em que a Itália sofria com a destruição decorrente da Segunda Guerra Mundial, o sacerdote recebeu a reportagem no Seminário Rogacionista de Bauru, onde ele próprio tocou no piano a música "Jesus, Alegria dos Homens", de Johann Sebastian Bach.

Depois explicou que, ainda na infância, acompanhava o trabalho das congregações religiosas: elas recebiam auxílio financeiro do governo para acolher crianças órfãs. A sua casa, inclusive, fazia parte de um tipo de complexo que incluía quartos para estes pequenos desamparados, uma Igreja tímida e o seminário. Nessa época, já percebeu que sentia prazer em participar das celebrações católicas. Assim, passou a auxiliar nas missas como coroinha.

Aos 9 anos, Guido conheceu um padre Rogacionista que atuava como promotor vocacional, ou seja, identificava crianças interessadas na ocupação religiosa. Algum tempo depois, aos 25 anos, estava de mudança para o Brasil. Hoje, com 73, se considera "mais brasileiro que italiano" e nem pensa em retornar à Itália.

"Eu me sinto brasileiro. A igreja já permitiu que eu voltasse, mas nem morto", comenta. Ao longo de sua trajetória, Mottinelli traduziu diários de padres italianos para o português e permitiu que a história da congregação Rogacionista no Brasil fosse mais conhecida.

Destaca ainda sua participação em um momento histórico para a Igreja Católica: "Em Passos (MG), aconteceu um milagre atribuído à intervenção do nosso fundador (Aníbal Maria di Francia). Eu fiz o processo e ganhei a causa no Vaticano", afirma Guido. Di Francia foi um sacerdote católico beatificado em 1990 por João Paulo II e canonizado em 2004 pelo mesmo papa.

Atualmente, o padre exorcista investiga e acompanha mais de 300 casos com suspeita de possessão. De acordo com ele, os demônios são impotentes em relação a Deus, mas não em relação ao homem.

E muitas situações não se resolvem facilmente. Mesmo depois de o diabo ser expulso de um corpo, ele pode voltar e, por isso, o acompanhamento da vítima é necessário. Padre Guido destacou, porém, que a Igreja respeita o tratamento médico e orienta a busca por cuidados clínicos. Muitas vezes, um fiel procura o padre achando estar possuído, mas na verdade precisa de tratamento psicológico.

Em outras ocasiões, ele tem certeza que está diante de um caso de possessão demoníaca. "Uma mulher chegou até aqui pedindo ajuda. Durante a conversa, sua voz mudou para uma voz masculina que começou a falar em Ladino", narra Guido. O Ladino é um tipo dialeto antigo que é falado por pouquíssimas pessoas, a maioria concentrada na região onde o padre nasceu.

Ele conta que Satanás procura formas de abalar a coragem e a dignidade do exorcista. Uma das coisas que, segundo ele, são frequentes na noite anterior à expulsão do diabo de um corpo é a quantidade de vezes que seu telefone toca para impedir o seu descanso.

"Meu telefone chega a tocar 50 vezes em uma noite. Quando atendo, só ouço o silêncio na linha. Não posso desligar, porque pode ser o hospital me procurando para uma emergência. Se eu desligo e não posso ajudar alguém, é uma vitória do demônio".

Guido Mottinelli, no entanto, compartilha do mesmo lema do padre italiano Gabriele Amorth, exorcista por mais de 30 anos.

"Eu, medo de Satanás? É ele que deve ter medo de mim", finaliza olhando sobre os óculos.