09 de julho de 2026
OPINIÃO

A Páscoa em que as pessoas tinham olhos claros de comunhão

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Alexandre Benegas

Aí o Zeca resolveu raptar o coelho da Páscoa. De verdade. Ficar de tocaia. Não pela rua de terra, bicho não se sujeitaria a pular em poeira, em terra inóspita, chão duro de pedra que só dava quipá e coroa-de-frade. Muito menos na travessa da encruzilhada com esgoto vomitando fezes, seringa, calcinha menstruada. Nem entregador de aplicativo passa. Pela janela, nem pensar, o bicho não se arriscaria pular em arame farpado e cacos de vidro.

Como viria? Voando? Zeca queria o coelho. Pegou corda, gaiola e restos de cenoura, couve pra lavagem dos porcos. Um canivete, caso fosse preciso. E se o coelho revidasse? Ainda na calçada, avisei o Zeca: Coelhos são rápidos, não caem em arapucas. Ele se queixou bem apressado e me perguntou o que fazer.

Zeca queria por demais o coelho. Explicou-me que tendo o bicho, distribuiria ovos de chocolates pra toda criançada que, como ele, passa vontade. E que trataria bem do coelhinho, daria-lhe toalha pra dormir, cenoura limpa pra todo ano ter abril em chocolates. Ter páscoa, comer chocolate de verdade. Ovo de páscoa de pobre pede socorro por sabor, tem gosto estático impassível de um quadrado que nascera pensando em ser ovalado. Não se rebela nas bocas famintas. Morre na afoiteza de disformes mordidas entremeadas de lambidas nos dedos.

Pessoal da Ong colabora. TopBel, Miramar, paçoca Mandubin. Bis pararam de dar. Deve ter subido o preço. Rico sabe o que faz. Zeca queria muito mesmo o coelho tanto quanto quis Papai Noel em dezembro. Tudo começou porque o tio do Zeca falou que Papai Noel, gordo e feliz, viria da neve, de um lugar muito longe.

País pobre não tem neve. Então Zeca ficava acordado pra ver se o bom velhinho chegaria de moto ou de carro. Só que na comunidade ninguém entra sem permissão do chefe, ninguém ultrapassa o perímetro sem o sinal do gerente geral. Alcaguete, X9, informante, fogueteiro tão de vigia.

Nessa noite, Zeca esperou, esperou, esperou. Ganhou o sono do sofá carcomido. O padrasto, em madrugada alta, deixou o presente ao lado da árvore de natal da sala, vazia de coisa e de gente. Uma bola embrulhada num amarelo Rembrandt gritando zelo.

A bola, o ovo de Páscoa: novidades que se albergam na primeira atenção do dia, na fatia da manhã que invade as frestas do barraco. Zeca (coitado) só ouviu, um dia, o 'ho ho' quando o caminhão da Coca-Cola, vermelho de emoção, passou com o Noel, pelo centro da cidade. E Coelho e o Papai Noel dão essas coisas sem nada em troca? Nadinha? A mãe o ensinou que nada é de graça nesta vida. Que do couro sai a correia.

Lá no fundo da cidade, é só três oitão, tiros, pó, porrada na quebrada, gente fabricando cigarro procurando prazer. Sem gingobel, mano. Ovo, só o que choca, parça. Deu pra entender? Zeca cresceu, não quer mais sequestrar o coelho. O menino cresceu sem esgotar aquela miséria. Aprendeu na aula de História, quando os professores retornaram da greve, que o país ainda vive ainda sob o fétido cadáver do subdesenvolvimento de uma identidade importada.

Ouviu Racionais, compreendeu que o crime e a favela andam lado a lado, como dois aliados, feito isqueiro e cigarro. Depois que leu Macunaíma, entendeu grande parte da classe política nacional. Na igreja, Zeca aprendeu que Páscoa é a celebração da passagem da morte para a vida através da ressurreição de Jesus Cristo. Difícil, shoppings e o comércio do centro não falam de Jesus, de cruz, e sim do coelho (eita, de novo ele), dos ovos e toda e essa vontade danada por chocolate que dá na gente. Zeca não sabe se escreve Brasil ou Brazil. Curti o Face, o Insta e sabe escrever Kopenhagen. Também é a terceira vez que ele escreve pro Papai Noel pedindo chocolates dessa marca.

Mãe de Zeca é faxineira da casa de Júnior, o estimado menino Pedro Leopoldo, filho único do Albuquerque. Na véspera do feriado de páscoa, Juninho diz: O mestre me ensinou a respeitar as diferenças. Que devemos partilhar o que temos de benefício ao próximo, conviver em harmonia com todos. Que devemos repartir o que temos. Que... Comunista! O nome dele, meu filho! Amanhã denunciarei esse professor à direção da escola. Jesus. O nome dele é Jesus.

Hoje tive aula com a pastoral, pai.

O autor é professor de Língua Portuguesa.