Casada há 37 anos com o sambista Arlindo Cruz, Babi Cruz já viu e perdoou de tudo no seu relacionamento, como uma traição, um filho fora do casamento - ambos têm dois filhos frutos da união, o cantor Arlindinho, 31 anos, e a influenciadora Flora Cruz, de 20. Kauan Felipe, hoje com 30 anos, convive com a família do pai e sempre foi bem-recebido por Babi - e um AVC do marido em 2017, que o deixou com sequelas severas.
O cantor necessita de uma cadeira de rodas para ir aos lugares, não consegue falar direito com seus familiares e amigos, mas esboça reações quando ouve música e assiste a seus filmes preferidos. Até dezembro de 2022, Arlindo foi submetido a 17 cirurgias.
Babi teve seu nome veiculado nas redes sociais e portais de comunicação do país na última semana, depois de revelar que está em um novo relacionamento com o empresário André Caetano, que conheceu durante as eleições do ano passado, quando foi candidata e teve sua campanha coordenada por ele.
O tema gerou grande repercussão e debate, além dos já conhecidos julgamentos do júri da internet. Em um comunicadonas redes sociais, Babi afirmou que, mesmo com o novo namorado, irá cuidar e se manter ao lado de Arlindo durante toda a sua vida. "A prioridade da minha vida é a saúde de Arlindo, inclusive as dezenas de profissionais da área da saúde que acompanham o nosso caso durante todo esse tempo sabem o quanto já abdiquei da minha vida por ele", escreveu.
Especialistas afirmam que as mulheres, historicamente, são ensinadas a serem cuidadoras e, por isso, tendem a não abandonar seus companheiros até eles falecerem, ou ela adoecer. Entre este grupo, inclusive, há aumento de casos de depressão e ansiedade.
"Quando nós temos um paciente que não vemos perspectiva de melhora, e que pode persistir nesse estado de alta dependência por anos sem voltar ao que era, já temos uma ruptura entre paciente e familiares na hora do diagnóstico, o que chamamos de "luto antecipatório", porque ele não conseguirá exercer seu papel social de marido, e a mulher vai perder seu companheiro, sua segurança, e se transformará em cuidadora 24 horas por dia. Ela terá que cuidar dele, e isso imputará sacrifícios sociais em prol da saúde dele", diz a coordenadora do serviço de cuidados paliativos do Hospital Brasil, da Rede D'Or São Luiz, Ana Carolina Capuano.
A especialista afirma que é importante para as pessoas que estão ao redor do paciente que procurem um jeito de "ressignificar" a vida e "seguir em frente". Pois o futuro da pessoa doente é o óbito, mas não necessariamente será a morte para aqueles que ficam. "É natural e normal que a mulher busque outra pessoa, mas não é uma tarefa fácil, é um processo longo, difícil e extremamente pessoal. No caso da Babi, ela demorou mais de cinco anos. E a mulher, em geral, ainda tem que lidar com julgamentos da própria família."
Psicóloga especializada em cuidados paliativos, Juliana Gueiros diz que essas mulheres encontram uma sobrecarga psíquica e emocional muito grande precisando de uma rede de apoio de amigos, conhecidos e até familiares.
"Ela vai se anulando para suprir as necessidades dessa outra pessoa. Ela não escolhe ser cuidadora, isso acontece de repente, e como mulher mais próxima e companheira, ela tem esse instinto de cuidar dele e vive nessa posição arbitrária. Uma parcela pequena consegue despertar."
ROMANTIZANDO
Gueiros afirma ainda que a sociedade costuma romantizar relação entre duas pessoas e que leva ao pé da letra a famosa frase: "na saúde e na doença até que a morte nos separe". Mas que não é bem assim. A especialista diz que o sentido dela pode ser alterado por questões físicas onde o paciente não consegue mais interagir.
"Enquanto tive esperança na reversão no quadro clínico e neurológico do Arlindo, de alguma possível melhora e recuperação para que eu pudesse ter qualquer relação com o meu marido, nunca passou pela minha cabeça ter outro homem em minha vida. Entretanto, a partir do momento em que ficou claro de que nunca mais voltaríamos a ter nem sequer o mínimo de relação entre homem e mulher, isso passou a ser uma possibilidade", escreveu Babi.
As médicas afirmam que é mais comum o homem abandonar a mulher. "É comum os homens abandonarem as mulheres em casos de câncer de mama, em que elas precisam retirar e reconstruir a mama, ou em diagnósticos ginecológicos, em que ela não pode mais engravidar, por exemplo. Quando as mulheres desistem, muitas vezes é porque já chegaram em seu limite de exaustão e acabam tendo crises de ansiedade e depressão, elas percebem que não estão bem e que precisam se cuidar", explica a médica paliativista e coordenadora do Hospital São Judas Tadeu, Sarita Nasbine.
Por mais difícil que possa parecer, a história de Babi e Arlindo não é única e acontece com uma certa frequência, principalmente em centros de cuidados paliativos, onde o paciente sabe que não há melhora de quadro.
Juliana Gueiros relembra de um paciente que tratou e que tinha Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) de forma avançada. Ele dependia de um ventilador para respirar, andava de cadeira de rodas, mas tinha a consciência intacta. A mulher, com quem estava casado há anos, desde o diagnóstico, em todas as internações e exames, ficou junto dele.
"Em um momento, ele mesmo pediu para ela ir viver. Voltasse a trabalhar, viajasse, encontrasse outra pessoa. No começo foi muito difícil, ela experimentou a fase da culpa, mas depois começou a ir se permitindo. Eles se mantiveram juntos até que ele faleceu. Eles não tinham mais relação conjugal, mas foram parceiros até o fim. Ele falava que não era justo ela viver o adoecimento com ele."
A médica geriatra responsável pelo serviço de cuidados paliativos e Suporte ao paciente do Hospital Israelita Albert Einstein, Erika Satomi, diz que há um consenso entre todos os enfermos quanto a necessidade de viver e que não há tempo a perder com coisas pequenas. "Eles falam que não querem ser um peso, e falam para as mulheres não se fecharem que sejam felizes."