16 de março de 2026
JUROS

Juros no Brasil: nível é ‘chocante’

Por Folhapress |
| Tempo de leitura: 5 min
Charles Sholl/Brazil Photo Press/Folhapress
Joseph Stiglitz participou do seminário do BNDES, no Rio, e fez críticas específica ao patamar da taxa de juros

Os juros altos não combatem as causas atuais da inflação no mundo, avaliou na última segunda-feira (20) o economista Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel em 2001. Para o professor da Universidade de Columbia (EUA), o aumento dos preços está mais associado ao impacto da pandemia e da Guerra da Ucrânia sobre a oferta de bens, e não a fatores de demanda aquecida, que tende a ser contida pelo aumento dos juros.

Stiglitz participou de um seminário no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) no Rio de Janeiro. Durante o evento, ele também fez uma crítica específica ao patamar da taxa básica de juros no Brasil, a Selic, que está em 13,75% ao ano. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) não cedeu à pressão do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a redução e manteve, na última quarta-feira (22), a taxa básica (Selic) nos mesmos 13,75% ao ano.

"De fato, são chocantes os números de 13,75% ou de 8% em termos reais", disse. Para ele, esse nível de taxas é capaz de "matar" uma economia como a brasileira. "Parte das razões da sobrevivência a essas taxas de juros é a existência de bancos estatais de desenvolvimento", disse Stiglitz em um elogio ao BNDES.

As manifestações seguem a linha adotada pelo presidente Lula, que vem defendendo uma redução da Selic. "Qual é a fonte da inflação? A pandemia, os suprimentos relacionados à guerra, as assimetrias nos ajustes de preços para essas mudanças. O problema é que a gente precisa responder a esses choques com mais investimentos. A taxa de juros impede esses investimentos", afirmou o economista.

O evento no BNDES discutiu questões de política fiscal e monetária às vésperas da nova reunião do Copom. A programação foi organizada em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

"O que é necessário para o Brasil é mais investimento, inclusive mais investimento público", afirmou Stiglitz. "Precisamos de ambos os tipos de crescimento, tanto público quanto privado."

O painel com o vencedor do Prêmio Nobel foi mediado pelo economista André Lara Resende, um dos mentores do Plano Real. Ao abrir o debate, Lara Resende também fez uma crítica aos juros altos.

"A combinação de juros muito altos e impostos muito altos é profundamente recessiva e impede o crescimento da economia", afirmou.

Ele ainda defendeu a atuação do Estado como necessária para o crescimento econômico. Para Lara Resende, o Estado não é "peso morto" nessa discussão.

O painel ainda teve a participação por vídeo do professor James Galbraith, da Lyndon B. Johnson School of Public Affairs.

Ele também questionou os juros do país, como uma política que transfere renda dos mais pobres para os mais ricos. "É preciso pensar em uma alternativa para as políticas, porque as atuais falharam."

O professor ponderou que o Brasil está hoje em situação mais confortável do que Estados Unidos e Europa, que sentem os efeitos da crise bancária iniciada com a quebra do SVB (Sillicon Valley Bank), que arrastou consigo o Credit Suisse.

"A crise bancária nos Estados Unidos está se espalhando, se espalhou para a Europa, que já convive com altos custos de energia", afirmou. "O Brasil, neste momento, não está afetado", continuou, dizendo que as elevadas reservas internacionais ajudam a tornar o país mais seguro.

OUTRAS CRÍTICAS

Economistas, empresários e políticos se revezaram na ofensiva contra o patamar da taxa básica de juros, a Selic, hoje em 13,75% ao ano, durante o seminário do BNDES.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Josué Gomes da Silva, chegou a dizer que as taxas de juros no Brasil são "pornográficas" e incompatíveis com a situação fiscal do país. Ele cobrou ainda uma reforma tributária que reduza a carga sobre a indústria, equiparando a cobrança a níveis mais próximos aos hoje oferecidos ao agronegócio. "Só nos ofereçam as mesmas condições que são oferecidas ao agro que teremos uma indústria pop, tech e tudo."

O vice-presidente Geraldo Alckmin disse esperar que a apresentação do novo conjunto de regras fiscais pelo Ministério da Fazenda viabilize o corte da Selic pelo Copom.

O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, negou que o seminário tenha sido agendado em razão da proximidade da reunião do Copom. Segundo ele, o evento foi marcado para a segunda quinzena de março para alinhar a programação à agenda de Stiglitz, que viajou do exterior para comparecer à sede do banco, no Rio de Janeiro.

TAXA FOI MANTIDA

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) não cedeu à pressão do governo Lula para redução dos juros e manteve, na última quarta (22), a taxa básica (Selic) em 13,75% ao ano. Sem adotar tom mais brando, a autoridade monetária não deu sinais de que pode antecipar o corte da taxa, indicando inclusive a possibilidade de voltar a elevá-la.

Essa é a quinta vez consecutiva, a segunda desde que Lula tomou posse, que os juros são mantidos no atual patamar, o maior desde 2016. No comunicado, o colegiado do BC enfatizou a "deterioração adicional" das expectativas de inflação.

"O Comitê reforça que irá perseverar até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas, que mostrou deterioração adicional, especialmente em prazos mais longos. O Comitê enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado", disse. O colegiado voltou a dizer que se manterá vigilante, "avaliando se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período prolongado será capaz de assegurar a convergência da inflação".

"O Comitê reforça que irá perseverar até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas, que mostrou deterioração adicional, especialmente em prazos mais longos", acrescentou.

Outro ponto que o BC chama a atenção é a incerteza sobre a nova regra fiscal e seus impactos sobre as expectativas para a trajetória da dívida pública. Na terça (21), Lula afirmou que o anúncio do marco fiscal ficará para abril.