11 de julho de 2026
OPINIÃO

Água rasa recusa mergulhos

Por Alexandre Benegas |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor de redação

Cedo ou tarde, a vida nos cobra com juros as escolhas. Nossas ações e omissões repercutem direta e indiretamente ao derredor. Que seja um sopro de elogio, uma lufada de felicidades, reconhecer o outro em sua grandeza gestual. Cada um, tal qual a flor, o fruto, oferece aquilo que tem. Entender a unidade de valor sensata dada a certas circunstâncias, embora contrárias à nossa vontade. Atitudes que contribuem inclusive na educação de um filho. Com Ocirino, isso não seria diferente. Experimentou, desde cedo, o poder da disciplina e do rigorismo cobrado pela família. Na infância, privado fora de migrar em colos em cuja vontade residiam beijar bochechas e comprimi-lo em afagos de abraços. Sujar-se na terra, marcar os pés na areia inexplorada, nem pensar. Sentar-se no chão, novamente os pais o reprimiam, temendo contato com vírus e bactérias. Tios e avós admiravam-se com excepcional higiene. Notável cuidado mantinha-o alerta aos cumprimentos que, esboçados em apertos de mãos, automaticamente desmagnetizados eram com o aspergir do álcool, em pequeno recipiente devidamente guardado em seu bolso.

Jogar bola descalço, brincar com o gerúndio do riso na chuva, banho de mar - só de touca e com o devido filtro, experimentar que com cinco e seis retas é fácil fazer um castelo, abraçar árvores, escalar muros, deitar a imaginação nos sujos do chão (credo!), beijar e ser lambido pelo cachorro (que horror!), bicicleta sem freio (meu Deus era só o que faltava!), Drummond (que pena!) cresceu sem saber que João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. Inquilino fixo de sua bolha, desconhecia o que seria viver com intensidade. Protegido da palavra-pedra que, endurecedora, estilhaça em falas separatistas, fere com marcas excludentes, cresceu num mundo de soluços pequenos, sem a memória da febre. Inocente, mal sabia do preconceito fornido e atuante se definir, agora, ardilosamente em pós conceito.

Na adolescência, ainda que o azul do céu o convidasse a apreciar as belezas da vida, mesmo que o sol irradiasse oportunidades, Ocirino resguardava-se em sua porção. Boca virgem. Curvas, só das estradas. Na escola, o preferido dos professores. Fórmulas, capitais, tratados, teoremas, datas, o emprego da crase, oração subordinada substantiva reduzida de infinitivo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos (ufa!), tudo sabia. Um belo dia, na aula de Filosofia, interrogação à vista, a professora propôs aos alunos leitura do texto 'A Arte de Amar', do renomado psicanalista Erich Fromm. Nesse momento nosso aluno travou, gaguejou, desconhecedor de que a vida, em princípio, se dá bem com duetos. Verso e prosa, saudade e abraço, aperto de mãos e tá combinado, livro e capítulo, terapia e sessão, canção e melodia, violino e Bach, piano e Mozart, trompete e Vivaldi, proteção e guarda-chuva, minha boca e você. Ele, no entanto, na gola passada, no colete abotoado, na carreira solo. Vida geométrica. Do legado da vida: normas, regras, escola, igreja, livros e uma Alexa ao lado da cama. Um dia, sentiu a necessidade do diálogo: "Mãe, eu", contudo se calou. Os pais seguiam suas vidas como uma mangueira, alheada dos próprios frutos, sem interferir, crentes de que o sacrifício seria compensado, de que todo o esforço lograria vitória.

Artista plástico renomado, com doutorado na Alemanha, especializou-se em aquarela. Com os desenhos, minimizaria a dor do destino escolhido. Com os desenhos, se assumiria, como o sol a protagonizar vida em tudo que alcança. Da água rasa aos abismos que nos convidam a mergulhos. Com os desenhos, tocaria em tudo que lhe falta.

Chamavam-no de Almirante, tamanha vocação por fazer pequenos submarinos de papel. Alguns mergulhavam na profundidade do ralo do chuveiro. Um dia, deram pela falta do Almirante. Ninguém da segurança soube explicar seu sumiço. Seus colegas de hospício juram que foi num pequeno submarino de papel.