A alta demanda de pacientes com suspeita de dengue e que precisam recorrer às Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Bauru escancarou as deficiências destes serviços, nos últimos dias. Insuficiência de profissionais, demora para reposição de medicamentos comuns e até de insumos básicos, como esparadrapo, foram denunciados pelos usuários, que chegam a passar mais de sete horas aguardando assistência médica.
Evidentemente, a superlotação das unidades torna a situação mais dramática, mas, conforme profissionais da área ouvidos pelo JC, os problemas não são novidade para quem presta e quem recebe os atendimentos.
Um médico que deixou de atuar nas UPAs de Bauru recentemente por preferir trabalhar em outras da região, entrevistado sob a condição de anonimato, conta que, entre os profissionais da saúde, a UPA da Bela Vista, a maior da cidade, é conhecida como "Faixa de Gaza", em alusão ao território palestino, onde sabidamente se vive sob constantes ameaças e conflitos armados.
"Nas UPAs de Bauru, pratica-se a medicina baseada no que tem. No Bela Vista, não há recursos suficientes para suprir a demanda e tem sempre pessoas brigando, invadindo o consultório, porque está há 5 horas esperando. Os profissionais se sentem inseguros, coagidos e o médico, prestador de serviço que recebe por plantões, sai de lá assim que tem condições de trabalhar em outro lugar, mais tranquilo e com mais recursos", descreve.
ESTRESSE
Trata-se de um problema que voltou a ocorrer na unidade na última quarta-feira (15), quando um grupo de mulheres que aguardavam atendimento de seus filhos tentaram agredir enfermeiros que realizavam a triagem. "Os vigilantes precisaram fazer uma barreira para protegê-los", contou outra fonte.
Em razão deste cenário, atualmente, muitos médicos que trabalham nas UPAs são jovens recém-formados, o que também é um fator complicador, segundo o profissional, porque eles ainda não possuem a experiência necessária para adotar condutas alternativas frente à precariedade de recursos humanos e materiais. Ouvido pelo JC também sob a condição de anonimato, um servidor municipal reforçou que tanto médicos quanto enfermeiros e técnicos de enfermagem estão sobrecarregados e insatisfeitos. "E, quanto mais estressada está a equipe, maiores as chances de erros", diz.
SEM LABORATÓRIO
O médico que concedeu entrevista destacou, ainda, que, diferentemente de algumas cidades menores da região, as UPAs de Bauru não contam com laboratório para exames simples, como hemograma e de urina, o que faz com que os resultados demorem mais tempo para ficarem prontos. "Na maioria das vezes, o resultado só sai no dia seguinte. O paciente precisa voltar para um segundo atendimento, com outro médico de plantão, que pode ter um entendimento diferente sobre o possível diagnóstico e pedir mais exames. Aí, o paciente precisa retornar pelo terceiro dia consecutivo, multiplicando o número de atendimentos na unidade", descreve.
De acordo com ele, já em uma UPA da região, quando lotada, exames ficam prontos após duas horas. Em situações mais graves, saem em 30 minutos. Em Bauru, por sua vez, em casos que inspiram maiores cuidados, é possível obter o resultado em cinco horas. "Se as unidades tivessem laboratório, já mudaria muita coisa", frisa.
As UPAs da cidade também não possuem tomógrafo, sendo este último centralizado no Hospital Estadual e Hospital de Base, com necessidade de liberação, por parte da Central de Regulação de Ofertas e Serviços de Saúde (Cross), para a realização do exame, em uma fila que inclui pacientes de cidades da região que não possuem este equipamento.
CONTAS REPROVADAS
Segundo o presidente do Conselho Municipal de Saúde, Claudio da Silva Gomes, a redução de investimentos na área tem levado o órgão a reprovar, reiteradamente, as contas da Secretaria Municipal de Saúde. Ele afirma que recursos disponíveis não estão sendo executados, tendo a prefeitura justificado enfrentar dificuldades com fornecedores ou licitações.
"Precisamos saber o motivo: se não está havendo planejamento adequado ou não está havendo critério na seleção destes fornecedores. Quando enfrentamos uma situação extrema, como é o caso deste surto de dengue, há uma exacerbação das falhas. E elas precisam ser corrigidas", afirma.
Reclamações vão de erro no diagnóstico a amostra de sangue deixada com mãe
Desde a última segunda (13), quando morreu com suspeita de dengue Ana Júlia Alves Antonio, 9 anos, que aguardava, na UPA Bela Vista, por vaga hospitalar em UTI, o JC recebeu, em suas redes sociais, inúmeros relatos de falhas no atendimento prestado nas unidades de urgência. Uma leitora, por exemplo, relatou ter ficado por oito horas na UPA Ipiranga, que estava lotada e com apenas um médico atendendo.
Outro disse que, na unidade Bela Vista, o filho foi diagnosticado com virose. Ao recorrer à UPA Redentor, descobriu que ele estava com apendicite e precisou passar por cirurgia de emergência. Uma terceira leitora relatou que, no último dia 10, foi a uma UPA com dor na barriga e a médica, além de não pedir exames, receitou apenas soro, já que não havia Plasil no estoque.
Já no dia 15, uma mulher conta ter chegado por volta das 13h na UPA Geisel, levando o filho com febre, que só foi atendido pelo médico quatro horas depois. Diante da suspeita de dengue, foi feita coleta de sangue e, para surpresa da mulher, uma funcionária deu a ela o tubo de ensaio com a amostra para entregar no balcão.
A ficha do menino, contudo, foi perdida e a mãe desistiu de esperar, indo embora por volta das 20h30. "O que pude ver, após sete horas e meia, é que os funcionários estão sobrecarregados. Não tem equipe suficiente para a demanda da nossa população", disse.