10 de julho de 2026
OPINIÃO

A cultura e o suplício de uma saudade

Por Carlos Pinto |
| Tempo de leitura: 2 min
O autor é presidente do ICACESP

"Um povo que não ama e

não preserva as suas formas

de expressão mais autênticas,

jamais será um povo livre."

(Plinio Marcos)

Tomo conhecimento que a família de Dona Celina Alves Neves, lá de Bauru, em função da falta de apoio de qualquer natureza, resolveu fechar a Casa de Cultura que levava seu nome. Conheci Tia Celina, era assim que nós a chamávamos, no final dos anos 60, em reuniões da Confederação de Teatro Amador do Estado de São Paulo. Sempre batalhadora pelas causas culturais, deixou sua marca em nosso Estado, mas principalmente na cidade de Bauru, onde residia.

Fechar um espaço cultural por falta de apoio, seja governamental ou dos moradores de uma cidade, é sempre um ataque aos bens culturais, que na verdade simbolizam o retrato de uma sociedade. A cultura nada mais é, que a somatória da vivência de um povo. Não apoiar ou colaborar com as manifestações culturais significa que estamos diante de uma sociedade amorfa, inútil por excelência.

O fechamento da Casa de Cultura Celina Neves, depois de décadas de atividades em prol da sociedade bauruense, é um ato representativo da nossa impotência diante do caos que se avizinha. Quantos sonhos, suor e lágrimas, Tia Celina e seus filhos enfrentaram para manter de pé, um dos principais pilares de uma sociedade que se traduzem nos bens culturais. Se Bauru tem hoje um monumento chamado Vitoria Regia, deve em muito a essa mulher batalhadora. Da mesma forma com relação ao teatro como espaço físico.

Sei como é difícil manter um sonho coletivo, quando esse mesmo coletivo não colabora nessa manutenção. E nesse coletivo incluo os governantes das cidades, dos estados e do país. Até hoje, nos quase cinquenta anos que vivencio o fazer cultural, não consegui vislumbrar um arremedo de política cultural que privilegiasse os fazedores culturais e, por conseguinte, a população a quem se destinam os resultados finais de qualquer manifestação desse caráter.

Me solidarizo com o Paulo e o Thiago Neves, até porque já tive tropeços desse tipo. Sei quanto doe na alma, ver um sonho desfeito por culpa de quem deixa de lado suas responsabilidades, por ser jejuno na área. São Paulo, que já foi o Estado vanguardista em manifestações na área cultural, hoje está em compasso de espera.

Desconheço quem é que atualmente ocupa a Secretaria de Cultura do Estado. Ultimamente temos tido péssimos ocupantes nesse cargo, exceção feita a João Saiad e Ronaldo Bianchi.

Concretizar uma política cultural voltada para o interior do Estado, como já tivemos nos anos 60 e 70, seria de grande valia para a retomada do crescimento cultural de nosso Estado.

Enquanto tal não acontece, presto a minha solidariedade a Tia Celina, e aos seus filhos que deram continuidade à sua luta.