09 de julho de 2026
OPINIÃO

A 'herança' do governo passado

Por Dejalci Eduardo Fontana Martins |
| Tempo de leitura: 3 min

O colunista Reinaldo Cafeo, quinta-feira sim e a outra também, vem tecendo loas à presteza com que o governo Bolsonaro atendeu às demandas da economia do país.

Há poucas semanas foi uma fala elogiosa à Argentina - diga-se que o elogio era muito mais ao futebol campeão do mundo do que à economia - e veio uma crônica em que o tema central era a "indigência intelectual" do presidente Lula. Nada a contestar quanto à indigência intelectual de Lula. Ele é político e deve responder aos seus atos numa próxima eleição. É do jogo democrático.

Agora, a defesa enfática com que a "herança" do governo Bolsonaro é feita pelo colunista merece uma resposta de quem não se esquece de algumas das ações "benfazejas" que o extinto governo do fujão deixou-nos. Senão, vejamos alguns pontos que o colunista entende serem pouco relevantes.

A Educação, com 5 ministros em 4 anos, teve andamento normal? Não! Um desses ministros está atrelado à corrupção com pedidos de ajuda a igrejas evangélicas em dinheiro - ou quilos de ouro. Coisa pouca, diria o sicário da pena. A Ciência, Tecnologia e Inovação obteve "desempenho excepcional", com cortes de verbas para pesquisa e tentativa de privatização de empresas públicas de desenvolvimento. Será que o consultor conhece a história do Ceitec? Ele já ouviu histórias sobre a fuga de cérebros, ou seja, técnicos do mais alto gabarito que deixam o país para alimentar laboratórios e universidades mundo afora? Empresas americanas e japonesas estão felizes, viu?

Por todas as áreas humanas e sociais, que me desculpem os incautos, houve um desmonte generalizado. Conselhos populares, todos, atacados e desmontados. Funai, Ibama, desestruturados sem dó ou pena. Voltamos ao mapa da fome, de onde havíamos saído, em 2013. Ora, despesas desnecessárias e dispendiosas, diria o ilustre colunista. E a Saúde? Também aqui um troca-troca sem fim. Dos 4 ministros, um deles general da ativa, ao assumir disse que não conhecia o SUS. Resultado somos 2,69% da população mundial e tivemos 10,16% das mortes por Covid ocorridas no mundo.

E o Meio Ambiente? Tivemos o maior incremento de devastação de florestas. Jamais visto. Rios da Amazônia poluídos com o mercúrio da mineração clandestina, leve-se em conta que a Ciência desconhece tempo e técnica para a correção. E as áreas ribeirinhas destroçadas pelos jatos de desmonte e turvamento das águas que impede a pesca dos povos originários? Será que o economista tem visto as fotos que estão sendo expostas, diuturnamente, nas mídias?

Podemos falar, resumidamente, sobre os yanomamis. Já que as suas colunas são recheadas de números e percentuais, passo-lhe alguns dados do SISAI: em 2022 morreram 99 crianças yanomami, menores de 5 anos, em Roraima. Dessas, 33 por pneumonia, 11 de diarreia, 8 por desnutrição, 5 por Covid, e as poucas outras por mortes diversas. E os estupros das mulheres indígenas efetuados por garimpeiros que tiveram incentivos, e olhos vendados, por quem deveria protegê-los? E daí? - diria o capiroto mor.

Os yanomamis são 0,0172% da população brasileira. Em 2022 morreram 590 indivíduos deste povo por doenças respiratórias. A economista e professora Maria da Conceição Tavares ensina, em uma de suas falas, que o economista que não tem o olhar para dados sociais não é economista, é um tecnocrata.

Eu sou engenheiro e, para mim, esta definição basta.