Levantamento da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) aponta que Bauru registrou, em todo o ano passado, 22 homicídios dolosos - quando há intenção de matar. O número é 22% superior ao de 2021, quando foram 18 assassinatos na cidade. Responsável por investigar as ocorrências, a Polícia Civil avalia que a maioria delas foi motivada por vingança e intolerância e que poucas têm relação direta com o tráfico de drogas, aspecto considerado positivo.
Principais motivadores, os sentimentos apontados têm relação com a sensação de impunidade e injustiça, assim como com a não evolução emocional, informa a psicóloga Patrícia Sonvezzo (leia mais nesta página).
Vários desses crimes, inclusive, foram noticiados pelo JC. Dentre eles, chamou a atenção um 'banho de sangue' por conta de uma briga entre amigos na região do Fortunato Rocha Lima, de fevereiro a abril do ano passado. O desentendimento resultou em cinco assassinatos, três tentativas de homicídio e várias prisões.
Já em agosto de 2022, repercutiu a morte de Fábio Alves Pinto, de 41 anos, alvejado após uma briga durante uma festa em via pública, na quadra 3 da alameda Saturno, no Parque Santa Edwirges. Ele chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos, em mais um caso de intolerância na cidade.
Também perdeu a vida o funileiro José Benedito Caputo, 37 anos, em outra ocorrência que chocou Bauru. Em novembro passado, ao tentar ajudar um motociclista durante um roubo, foi morto a tiros pelo assaltante. O crime aconteceu na quadra 5 da rua Laudze Garcia Menezes, no Parque Jaraguá.
"O homicídio é um crime muito particular e que qualquer pessoa pode cometer. As motivações variam desde as mais banais até um tribunal do crime. Em Bauru, no ano passado, avaliamos que a maioria delas foi motivada por vingança, como no caso do Fortunato; ou por intolerância, como as brigas de bar, que, no calor do momento, terminam da pior forma", detalha Ricardo Silva Dias, delegado divisionário da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic), para onde as ocorrências desse tipo, de autoria inicialmente desconhecida, são encaminhadas para apuração.
AVALIAÇÃO
Por outro lado, ele avalia que, mesmo com o aumento verificado, o número de assassinatos registrados não está em patamar considerado alarmante, em comparação a outras cidades do Estado de porte similar ao de Bauru. Carapicuíba (405 mil habitantes) e Itaquaquecetuba (379 mil moradores) tiveram, respectivamente, 31 e 28 homicídios cada, em 2022, segundo a SSP.
"E o fato de as motivações não serem relacionadas ao mundo do crime também pode ser apontado como algo positivo, porque significa que a criminalidade do município não está produzindo homicídios em série, como ocorre, por exemplo, em guerras por pontos de tráfico", complementa o delegado. Dias destaca, ainda, que o alto índice de esclarecimento pela Deic, cujo percentual atinge 80%, também funciona como um inibidor de delitos na cidade.
'ATITUDES IMPENSADAS'
Patrícia Sonvezzo, psicóloga clínica Cognitivo-Comportamental, explica que os sentimentos de vingança e intolerância tangenciam atitudes impensadas, extremas e danosas tanto para quem pratica quanto para quem sofre.
"A vingança está muito arraigada com a sensação da falta de justiça no Brasil ou a justiça sendo aplicada de forma mais estreita somente para a minoria oprimida. Aliás, muitas vezes, não somente a sensação, mas também a fatos", detalha.
Já a intolerância, segundo a profissional, surge quando a pessoa é tomada por sentimentos que se opõem ao que ela acredita ser certo ou justo. "É uma dificuldade em evoluir emocionalmente e aceitar o diferente, do ponto de vista dela. Reações mais intensas podem desencadear necessidade de vingança e, assim, em homicídio", complementa. "Quando se trata do coletivo, mais pessoas envolvidas e que compartilham da mesma opinião do intolerante, a proporção se torna maior".
INTERFERÊNCIAS
Para combater tais sentimentos, podem ser aplicadas interferências psicossociais, visando melhorias no meio ambiente e condições de vida. "Suporte psicológico e até mesmo psiquiátrico, com uso de medicamentos em alguns casos, muitas vezes também são necessários", conclui Patrícia Sonvezzo.
OUTROS DADOS
Outras estatísticas relacionadas a crimes contra a vida, como tentativa de homicídio e lesão corporal dolosa, apresentaram queda na comparação entre 2021 e 2022 (veja no quadro abaixo) em Bauru. Já o latrocínio (roubo seguido de morte) manteve seu índice, com um caso em cada ano.