09 de julho de 2026
OPINIÃO

Traduzir-se

Por Alexandre Benegas |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor de Língua Portuguesa

Ação e reação, causa e consequência. Seja o que for, aprender com a vida que a semeadura é livre e a colheita, obrigatória. Foi assim que Marina, ainda adolescente, desafiava a sorte e o resultado de suas escolhas. Formada em Psicologia, sabia do diletantismo entre o bem e o mal, dos ardis da inventividade humana, da valência da imaginação, do lobo e do cordeiro, inquilinos exigentes e disfarçáveis da enigmática mente humana. E durante muito tempo, Marina soube ser hospitaleira a esses dois hóspedes. Durante a faculdade, a aluna dedicada, a melhor média da turma, cumpridora pontual dos estágios. Tamanha dedicação discente, chamava a atenção dos docentes. Chamada fora para apresentar um trabalho científico. Psicóloga escolar da rede pública de ensino, reservava tempo e espaço como voluntária no atendimento humanizado a clínicas de atendimento gratuito à população de rua. Aos finais de semana, atuava como palestrante motivacional aos que viviam ao cerne do desamparo, à deriva diária, tal qual a palavra que, ao perder o viço, se desfaz em gesto, o capítulo, em página e o livro, em resumo. Dessa forma, durante o dia, Marina, ovelha, cativava todos com sua lã.

A noite, tinha de ser à noite, a mulher descortinava taras e desejos reprimidos. O motorista do aplicativo a deixava bem no término, na anca da Primeiro de Agosto. Era a Marina da gargalhada escrachada, das piadas intensas. Em seu rosto cansado, divertir-se só podia ser uma vingança. Loira, de lábios gretados, vestida num lilás de feira, levava à boca o cigarro que ganhava dos seus clientes. Entre goles breves, dava duas ou mais tragadas seguidas, movendo lentamente entre as bases do polegar e do indicador um chiclete com risos oferecidos. Seu batom acentuadamente vermelho anunciava companhia fácil a uma noite quente e bêbeda repleta de ânimo e agitação. O bar, como de costume, repleto de machos. Olhos invasivos penetravam seu decote. O corpo sabendo de sua redonda sensualidade, alongava-se em geometrias provocantes. Madrugada? Nunca era noite tarde na dormência acordada da rua. Sua dança, seu salto alto, sua alegria, tudo em Marina explodia exageradamente. No quarto do hotel, tratava seus clientes como seus pacientes. Ali, ouvia do enfermeiro alérgico a sangue ao telemarketing gago. O uísque na mesa de cabeceira, cúmplice de vergonhas escondidas, do ridículo inconfessável. Os vincos do lençol dormido, testemunhas de promessas acanhadas e de poesias de amor não correspondidas. Desse jeito, Marina, loba, alegrava-se fora de sua matilha.

E assim Marina se traduzia. Uma parte: sílabas comportadas, gestos admiravelmente perfumados. A outra, o verbo imundo e proibido vomitando a palavra turva em beijos de liquidação de um corpo prostituído.

Num dia, governada por cansaços, enjoos, ouviu de seu médico. "Deu positivo, Marina!" Uma pontinha de preocupação agulhava seus dias, escurecendo sua voz. Não esperava tão logo ouvir isso, contudo a vida, um dia, nos cobra com juros o empréstimo concedido quanto ao livre-arbítrio. No grupo de WhatsApp da família e nos encontros na casa dos pais nomes concorriam ao gosto, à aprovação da mãe que se nascia. A irmã do meio, bibliotecária, selecionava uma pasta ofício polipropileno elástico com lombo 4cm para recepcionar futuros exames sentenciados numa alva folha A4 sulfite 75g. Se for menina, será palmeirense - sorria orgulhosamente o avô. Se for menino, vestirá o prestígio da toga igual ao tio na promotoria - apostava a cunhada. Primas mobilizavam-se no auxílio pelo enxoval.

O irmão, economista, indicava-lhe o título de previdência privada ideal. O pessoal da clínica, seus pacientes, a turma do bar, os vizinhos, o síndico, até o porteiro, ninguém sabia que o positivo, no entanto, era para o HIV.