09 de julho de 2026

Ande, mas não desande

Por Roberto Magalhães |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais

Outra opção não há, senão andar. No fio do arame, vacilou é queda certa, o jeito é se equilibrar. Queiramos ou não, o arame falsamente esticado todos os dias estará. A vida é aventura circense, não há como dela escapar. Hoje tem marmelada? Todos os dias, senhor! E o palhaço quem é? É o coitado de quem roubaram a mulher.

Lona, pipoca, picadeiro, amendoim, espada de fogo goela a dentro, algodão doce, palhaço apanhando na cara, sorvete de picolé, o leão domado de cada dia, e, finalmente, a atração esperada: o salto mortal. Mas tem um porém: que seja sem rede. A plateia exige frio na barriga, tudo pra valer, doa a quem doer, morra quem tiver que morrer.

Ande, na vida outra opção não haverá. "Não discuto com o destino, o que pintar eu assino", disse o Leminski, sabendo que o tempo assassino chega tão de repente, que nem tempo a gente tem de o paletó abotoar. Que o façam por nós. Correndo todos os riscos, caminhamos sem ter a quem apelar. No olho, o irritante cisco do dia, na agenda, todos os compromissos, mas o acidente nunca se deixa prever. Quando menos a gente espera, a esperança arruma a mala e se manda, cansada de esperar. A vida é só isso, mas com otimismo pode ser mais. É a velha história do copo meio vazio que meio cheio também pode estar. É todos os dias acordar, descer da cama, tirar o pijama, pôr o pé na estrada e caminhar. Uma artéria obstruída, uma rua sem saída, uma bala perdida ou uma que nos ache, ninguém sabe, ao dobrar a esquina, que bicho vai pegar. Nisso tudo, felizmente existe uma graça, a gente se acha eterno, mas quando percebe que não, dá logo um jeito, desvia o pensamento pra outra coisa imaginar: uma suculenta feijoada, torresminho, couve e cachaça. Pensar assim, tem duas vantagens: saliva a fome e apetita o desejo de viver.

Ande, mas não desande, que aí a coisa deteriora. Desanda a maionese por perder o ponto; também quem temperou a vida com falsa receita; igualmente quem andou com sapato que não era seu. Se puder ande na linha, mas não esquente, podre todo mundo tem. Não precisa me dizer com quem você anda, mas, se for com má companhia, me convida que eu vou. Quero muita festa e igual alegria! Dançar, comer de lambuzar, quem sabe até pecar. Quero, enfim, viver, o que as boas companhias nem sempre têm coragem de fazer.

O segredo sempre esteve no andar. Mas, tem um porém. Para onde? Não sendo desvairada, toda caminhada uma direção determinada deverá ter. Sem bússola, melhor não navegar. Eis a questão: sair de si para o outro buscar? Ou ficar em si para se encontrar? A boca, sempre apressada, vai logo dizendo que, antes e acima de tudo, o outro é preciso buscar, acolher e amar. É assim. Mas não é bem assim. Sem que eu me ame, sem que eu me acolha, sem que eu me conheça, pouco ou nada ao outro poderei oferecer. É aqui que entra o afeto. Melhor do que o substantivo, todavia, é o verbo conjugar. Afetar-se: sentir atração, deixar-se seduzir, encantar-se. Se o segredo é caminhar, que seja também para dentro, escolhendo as coisas boas que possam nos afetar. Baudelaire ensina como devemos nos afetar: "É necessário estar sempre bêbado". Calma! Sem susto, que poesia não se lê ao pé da letra. Enfim, o poeta desnovela a metáfora: "É necessário estar sempre bêbado. De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis."

Embriagada pela alegria de viver, qualquer pessoa emana a energia etílica que, afetando a si, o outro afetará. Embriaguemo-nos, então, de alegria, de empatia, de amor pelo outro, mas por nós mesmos também. E quando do outro eu me aproximar, que eu esteja alegre e leve seja. Pesado, amargurado, reclamando de tudo e de todos, melhor perto dele não chegar. O outro não é bengala tampouco muro de encostar. Ande, não desande. Encontre-se antes de o outro encontrar.