08 de julho de 2026
OPINIÃO

Limonada

Por Alexandre Benegas |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor de Língua Portuguesa

Recordações da infância precipitam-se. Final de semana, feriados prolongados, férias, meus pais prolongavam minha segunda morada na casa dos meus avós. Família feliz, simples e o melhor, reunida. Na bagagem, roupas e brinquedos. No chão do sala, bonequinhos de plástico disputavam a invasão armada. Mãos hábeis munidas de espadas, facas e cartucheiras defendiam, com a geometria que o piso delineava, o espaço invadido. Plunct, Plact, Zum, ninguém iria a lugar algum. Cansado da brincadeira, índios e vaqueiros, recolhidos num despacho pacífico, deitavam animosidades na escuridão da caixa de sapato. Era hora dos carrinhos de corrida. A Kombi, cor marrom glacê, roncava no encosto íngreme do sofá. O Fusca ficava no chão, perto dos pés dos meus avós que, assistindo ao reclame da novela, acompanhavam o trajeto que minhas mãos conduziam os carros. Minhas mãos próximos aos pés deles. Só na casa dos avós isso acontece.

Dormir, passar os dias na casa dos meus avós fazia diferença em minha vida. A começar pelo endereço. Alameda das Primaveras. Minhas lembranças se despetalavam com o simples sopro da alegria. Só quem mora num lugar de primaveras poderia ser e servir-se de estação ao outro. Apenas quem é primavera poderia ser metáfora na vida de alguém. Reconheçamos: se ostentação é ter pais em companhia diária, luxo é ter avós vivos. Minha avó, de reclamação ruidosa, muito papagueava. Meu avô Antônio falava o necessário. Precavido, mostrava seus mantimentos no quartinho do fundo como meio de zelo e do necessário que se poderia fazer com o dinheiro. No quintal, salsa, cebolinha, mudas de café perfiladas - como se esperassem afetos - o pássaro preto na gaiola. Enquanto o sol tinia como vidro na porta da cozinha, meu avô, em silêncio comprido, auxiliava minha avó no feitio das balas de coco. Dentre os seus hábitos, ele fazia limonada para eu experimentar. No início, mentia satisfação sorrindo para a vitamina frugal; um riso equivocado para mais tarde convencer-se do híbrido equilíbrio entre a limonada e o açúcar. No meu copo, o suficiente do sumo e do açúcar. Entendia ele sobre o essencial. Eu finalmente lhe agradecia com alegria nos olhos.

Diabético, era o doce da família. Contraiu a doença pelo seu excesso de dulçor. Sabia ser verão e primavera em vidas atingidas por rígidos invernos. Perseguia-me a recordação de sua vida simples, ordeira, de olhos com plenitude, de sorriso com passado restituído, repisando o mesmo chão. Casa do Arroz, Baixada do Silvino, senhorinhas à janela, de línguas fuxicadas, ganhando calos nos cotovelos, num tempo em que os acontecimentos bons e ruins não passariam daquilo, acostumados que vivíamos. Ele, quieto, no retorno do lar, ensombrando o rosto com chapéu na tarde silenciosa clamando pela noite definitiva. No silêncio reflexivo, dava pra ver a luz do fósforo, a brasa esmorecendo e avivando-se na escuridão do fumo.

Numa outra sexta, ele trouxe abacates. Mostrou-me a torrefação do café. No sábado, novamente a limonada. No meu copo, uma vez mais o necessário. O tempo passou. Não mais entre nós, toda saudade deixa cor. Memória de um verde inalterável. Renovo seu jeito com meus filhos, compreendendo, pois, o porquê de ele me servir a limonada ou qualquer outra vitamina daquela forma. É na periferia do sabor que vivem os gostos impalatáveis. A vida ora doce, é sensação adorada; azeda, requer de nós quantidade sensata da colher retirante; amarga, mobiliza-nos à consciência itinerante.

Aprendizado é bem isto: atentar-se ao que se põe, fica e cristaliza-se.