09 de julho de 2026

Contrato de Vida

Por Alexandre Benegas |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor de Redação

Discutir com o passado? Besteira. Leite derramado não volta à xícara. A partir de hoje, um novo dia inaugura o calendário. De um lado você, o contratante. Do outro, ele, o Ano Novo, o contratado. Na determinação dos direitos e deveres de ambas as partes, as cláusulas seguem o contrato com especial atenção ao prazo de validade. Por bom senso e ética, inexistem aqui letras miúdas, tampouco ambiguidades e rasuras.

Parágrafo único: Destaca-se, no contrato, que a experiência é única, de total responsabilidade do contratante e sem direito a resgate de tempo. O contratado se vê no direito de abreviar dias, sem necessidade de aviso-prévio, caso o contratante entregue esteja a vícios e imprudências.

Embora possa haver alguma semelhança entre uma cláusula e outra, o ano novo descortina esperanças com ineditismo ressignificador, renovando o impossível, o improvável. No útero do tempo, o previsível, o ponderável. Medidas iniciais? 365 dias. Peso? 8760 horas, 53 semanas. Nascido, você busca, em prece, agradecer ao universo por mais uma ano. Esperado, ele traz choro como também muita alegria, essa diferença imprime nosso espanto ante a vida. Destino? Livre arbítrio? Vela, uma vez acesa, não para mais de queimar. Recomenda-se não se assustar com fatos repetidos, repetidos. O universo buscará a repetição a fim de você aprender, com o atrito da tristeza, a reconhecer centelha de alegria. Valorizar, por breve e minúsculo, momento ímpar de se viver em par com a gratidão; entender tolerância com o olhar dos bois; que na vida, às vezes, o sublime na arte de ensinar é o súbito aprender; de quem leva dúvidas na pele esfoliada do real, dúvidas que nem a verdade poderia dirimir.

Aos casais separados, fica decretado jamais legar aos filhos um morro cujo cume seja a ausência. Aos desamparados, miúdos de olhos cúmplices, compreender com Heráclito as imperfeições do amor: "A pedra que no papel inútil é para desenhar uma reta, dentro d'água faz círculos perfeitos"; que no meio do percurso, há quem parta, deixando dor, como pedra que, na água, recruta a lembrança todos os dias a polir. Perceber que a providência divina cobra caro aos que a consideram conta vencida; que presentes trazidos ficam sobre a mesa e o que importa vai embora com quem esteve. Entender a ocasião com a sabedoria silenciosa das plantas, da necessidade do adubo, do sol, da sombra, da poda. Aceitar, por que não, as necessárias reformas íntimas, tal qual um livro atualizado em nova edição; chacoalhar a árvore da nossa existência para que frutos irremediavelmente podres ganhem a convocatória da queda. Ah! Não esperem de mim a descrição do tronco, do galho, afinal, para a vida, a raiz vale mais que o fruto.

Aos políticos, sim essa espécie de homens que também vindos do barro vivem na lama, deixa pra lá. Levar a vida mais leve, mesmo aos que tanto trabalharam em 2022 e que mal tiveram tempo de coçar, já que não tiveram oportunidade pra cortar as unhas. A tentação, cuidado!, sazona como fruta provocativa ao apetite da mordida. Fica decretado que guardarás cheiros - do abraço recolhido da avó, da chuva, da chuva na terra, da noite que deserta razão ao rebate da emoção, do vinho, da boca e língua, língua e boca, do corpo em estado de vassalagem.

Aprender com o genialmente humilde, com o humildemente genial. Desaprender o orgulho, da lâmpada com presunção de holofote, do mármore fingindo granito. Fica, então, combinado que o fruto amadurece no seu tempo, no devir, no dever de colhê-lo e provar de seu sumo.

Feliz ano novo!