10 de julho de 2026
ENTREVISTA

Entrevista da Semana com o 'fera' da Física Roberto Nardi

Por Marcele Tonelli | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Marcele Tonelli
Roberto Nardi mostra medalha internacional recebida em dezembro da Iupap, maior honraria na área de ensino à Física no mundo

DO BELA VISTA AO MUNDO PELA FÍSICA

Ele é bauruense, filho de funcionário da ferrovia e criado no Jardim Bela Vista, mas hoje é reconhecido no mundo como uma sumidade do ensino à Física. Professor da Faculdade de Ciências (FC) da Unesp, Roberto Nardi, 71 anos, possui mais de 50 anos na docência e foi condecorado, em dezembro último, com um prêmio internacional por sua contribuição em relação à disciplina. Trata-se de uma medalha conferida anualmente pela Comissão Internacional do Ensino de Física (ICPE), uma das comissões formadas por mais de 60 países que integram a União Internacional de Física Pura e Aplicada (Iupap).

Considerada homenagem máxima na área (e que havia sido recebida apenas uma única vez na história por brasileiro), a premiação consagra legados cuja influência ultrapassa as fronteiras do país. O nome de Nardi foi indicado ao prêmio pela Sociedade Brasileira de Física (SBF).

Com 45 livros publicados, o professor da Unesp é considerado um dos mais antigos do País no ensino à disciplina, tendo contribuído para formação de centenas de mestres e doutores Brasil afora. Docente apaixonado, ele confessa "viver" pela educação, tendo como segunda paixão as viagens, geralmente feitas com viés profissional.

JC- Conte um pouco sobre suas origens

Nardi- Sou neto de italianos que trabalhavam na roça. Meus pais, Paschoal Nardi e Mafalda Froline, vieram para Bauru em razão da ferrovia, porque ele conseguiu um emprego na antiga Companhia Paulista. Sou o caçula de três irmãos (ele, Neusa e Rubens). Cresci no Jd. Bela Vista e precisei que trocar as brincadeiras na rua para começar a trabalhar, meu primeiro emprego foi aos 14 anos como auxiliar de escritório na Casa Lusitana.

JC - A decisão de fazer faculdade de Física surgiu como?

Nardi - Meus pais queriam que todos os filhos fizessem faculdade e eu estudei sempre em escolas públicas, na João Maringoni e Morais Pacheco. Tive professores excelentes e que cobravam bastante, então, sempre me dediquei. Na época, o único curso superior em Bauru era de Odontologia, na USP, mas aí a prefeitura abriu a Fundação (atual Unesp) com o curso de Física. Foi aí que eu decidi que me tornaria professor e mergulhei. Fui bolsista e, no 3º ano de faculdade, já lecionava. Concluí o curso em 1972 e, em 1974, passei a professor da E.E. Luiz Zuiani. Em 1975, fui convidado para ministrar aula de Ciências na Fafil (atual Unisagrado).

JC - Foi nessa época que você foi para a Temple University, nos Estados Unidos? O que veio depois disso?

Nardi - Fiquei na Filadélfia de 1976 a 1978 e voltei ao Brasil como mestre. Depois, prestei concurso e, em 1980, ingressei para o departamento de Física da UEL, o qual chefiei depois. Fiquei lá até 1994, ano em que vim para a Unesp de Bauru.

JC - Qual o momento em que sua carreira como pesquisador viveu "uma virada de chave"?

Nardi - Quando estava na UEL fui convidado para presentear a SBF pelo Paraná. Me filiei e comecei a participar de todos os simpósios e, assim, fui assumindo cargos, chegando a me tornar presidente da comissão de pesquisa. Acredito que eu estava no local certo e na hora certa, porque tudo confluiu para me abrir caminhos depois. Foi a SBF que me indicou ao prêmio internacional que recebi.

JC - Fale sobre suas principais contribuições na área acadêmica.

Nardi - Orientei o trabalho de mais de cem pesquisadores e até ganhei uma arte pintada por uma aluna, a "árvore acadêmica" com os nomes dos orientados de mestrado, doutorado e pós-doutorado das últimas décadas. Sou um dos fundadores do Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência da Unesp, que desde 1997 já formou cerca de 650 mestres e doutores, incluindo pesquisadores de países como Colômbia, México, Canadá e China. Tenho 45 livros escritos, criei a revista Ciência & Educação e participei de mais de 450 eventos relacionados ao ensino de Ciências e de Física.

JC - O que o levou a conquistar essa premiação?

Nardi - A minha luta é por criar formas de ensinar Física que sejam mais efetivas do que apenas decorar fórmulas. É preciso envolver a disciplina na resolução de problemas reais do dia a dia, porque ela é conceitual. Sobretudo, não basta conhecer para ensinar, os educadores devem considerar o contexto de vida dos alunos, a faixa etária e o conhecimento que já possuem, respeitando o que o aluno traz, contrapondo e, se necessário, desconstruindo para que o aprendizado ocorra. O Brasil é um dos países que mais se desenvolvem no ensino à Física e posso dizer que participei ativamente dessa evolução. Digo que nosso problema é publicar as pesquisas em português, que não é uma língua universal.

JC - Qual a importância dessa medalha?

Nardi - Essa é a maior honraria na área de ensino à Física no mundo. E deslocá-la da Europa, que é onde geralmente ela fica, para a América Latina é uma realização. Esse prêmio não é meu, mas de todos nós e da Unesp de Bauru. Digo que já posso até morrer tranquilo (risos).

JC - Quem é o Roberto Nardi fora da academia?

Nardi - Um solteirão que estuda muito e ama viajar. Já fui para mais de 60 países, mas nem 10% disso foi para lazer, a profissão é que me leva.

JC - Planos futuros?

Nardi - Já estou como professor associado na Unesp, que é o último cargo possível, e pretendo continuar como orientador voluntário do mestrado e doutorado. Quero continuar compartilhando conhecimento, se eu parar, acho que entro em colapso! (risos).

O QUE DIZ O PROFESSOR

'A minha luta é por criar formas de ensinar Física que sejam mais efetivas do que apenas decorar fórmulas'

'Já fui para mais de 60 países, mas nem 10% disso

foi para lazer, a profissão é que me leva'