04 de abril de 2026
PELÉ ETERNO

Bauruenses recordam memórias do imortal do futebol

Por Bruno Freitas |
| Tempo de leitura: 9 min
Reprodução
Pelé, o terceiro agachado da esquerda para a direita, em amistoso com a camisa do time profissional do Noroeste, em 1955

O Rei do Futebol desencarnou do plano físico e passou a ocupar a cadeira mais nobre no olimpo dos deuses do futebol. Há muitas décadas, Pelé é uma figura mística dentre todos os esportes do mundo, inclusive tendo sido responsável até por um cessar-fogo de guerra civil em Benin City, na Nigéria, em viagem do Santos, em 1969. Já sua relação com a cidade de Bauru, onde deu os primeiros chutes em uma bola, na infância e adolescência, teve suas incompatibilidades, mas nada muito sério, afirma o radialista e professor aposentado de jornalismo Paulo Sérgio Simonetti. Ele e muitos outros bauruenses que conviveram com o Rei detalham que Pelé gostava, sim, da cidade onde viveu por 10 anos e recordam lembranças de fatos que nem todos sabem.

Inclusive, a fala de Pelé, que estampou a capa do Jornal da Cidade de Bauru no dia 16 de março de 1975, narra que o Rei destacou que em várias partes do mundo nunca se esqueceu desta cidade, às vezes colocando-a acima da sua terra natal, Três Corações (MG).

Segundo Simonetti, Pelé, ainda pequeno, levava a torcida para ver seus jogos nas preliminares do profissional do Bauru Atlético Clube (BAC), tal era a preciosidade de seu futebol. “Pelé é Pelé, o maior do mundo, de todos os tempos. Muito se fala de Messi, agora que ganhou a Copa, mas não tem comparação. O legado do Pelé não é para Bauru, é para o mundo”, afirma o jornalista e apresentador da 94FM.

Simonetti acrescenta que conviveu com a família dele e era muito próximo do irmão caçula, Zoca, que já faleceu. “Uma relíquia que guardo em um quadro na rádio é uma foto minha entrevistando o Pelé em um Noroeste versus Santos, no campo do BAC”, destaca.

REI TAMBÉM NO FUTSAL

Aos 15 anos, ainda franzino, mas muito atrevido com a bola nos pés, não só a de futebol, mas também com a do antigo futebol de salão (hoje, futsal), Pelé marcou 40 gols em 12 jogos, foi artilheiro, craque do campeonato de futsal de Bauru antes de ir para Santos, em 1955.

Segundo o antigo companheiro de time nos tempos de Radium Futebol Clube, Norberto Conte, 86 anos, Pelé jogava com eles nas peladas de final de semana em um campo de terra na rua Quintino Bocaiúva, atrás do antigo estádio do Noroeste que pegou fogo, onde hoje é o Sesi, nos Altos da Cidade.

“CARINHO POR BAURU”

Norberto e Pelé jogaram juntos e foram campeões em 1955 quando o Radium passeou sobre todos os adversários. Ele cita que mais da metade do time já subiu para o andar de cima. " Acabamos perdendo contato porque ele foi para Santos e naquela época era difícil a gente se reencontrar, mas ele sempre teve carinho conosco”, comentou, em entrevista recente ao JC.

“VIZINHOS”

Pelé e o pai Dondinho eram muito queridos por toda a vizinhança nas imediações das ruas Sete de Setembro e Rubens Arruda, no Centro. Uma destas famílias era a Tayar. Três gerações conviveram com Pelé e ajudaram a família do Rei, que no início dos anos 50 era muito pobre.

Segundo César Tayar, o Canhoto, 77 anos, ele cresceu vendo Pelé se tornar o Rei do Futebol. A diferença deles é de 5 anos. “Meu avô Adib Tayar e meu pai Ramiz Tayar ajudaram muito a família do Dondinho. Éramos vizinhos. Certa vez, em uma das visitas de Pelé a Bauru, ele disse aos amigos que nunca esquecia da gente, porque não deixamos a família passar fome em um período de necessidade da infância. Ele me propôs, depois do bicampeonato de 1962, me levar para Santos, para fazer testes no profissional, porque eu era um ponta-esquerda que se destacava em Bauru, mas meus pais não me deixaram ir”, conta Canhoto.

“GOSTAVA DE BAURU”

Outro que destaca que Pelé marcou sua vida foi o ex-goleiro do Noroeste Francisco Cefaly Neto, o Chiquinho, 76 anos, que defendeu um pênalti do Rei em plena Vila Belmiro, em 1965.

“Na época eu tinha 18 anos, perdemos de 6 a 2, mas eu pulei para o canto direito na penalidade e fiz uma das principais defesas da minha vida. Foi, inclusive, a minha estreia no Campeonato Paulista”, cita.

Chiquinho acrescenta que escuta até hoje muitas pessoas dizendo que Pelé não gosta de Bauru, o que para ele é uma grande bobagem. “Pelé tinha compromissos no Brasil todo e até internacionalmente. Veio sempre para cá quando tinha tempo. É claro que, quando ele vinha, algumas pessoas se sentiam desprestigiadas por ele não procurar, mas era impossível ele se confraternizar com todo mundo em pouco tempo. Ele movia multidões”, frisa o ex-goleiro, que também morou perto da casa do Rei, no Centro.

ALVOROÇO

Outro jornalista que acompanhou de perto as visitas de Pelé em Bauru no auge da carreira do Rei, entre 1958 e 1970, César Savi, 85 anos, viu de perto essas multidões em torno do Rei.

“Em 1962, ele estava aqui na cidade, na semana de um Noroeste versus Santos, e numa segunda-feira Pelé foi falar com o inquilino da casa dele, Milton Luiz Teixeira da Silva, que era gerente do banco onde eu trabalhei, o Crédito Real, local onde atualmente é a Lojas Cem, no Centro”, relembra Savi. Ele cita que, ao chegar na agência, Pelé causou um tremendo alvoroço, um tumulto nas imediações do Calçadão e no próprio banco.

VERSUS NOROESTE

Pelé chegou a treinar no Esporte Clube Noroeste, em amistosos do profissional, entre 1954 e 1955, onde, inclusive, segundo o memorialista Luciano Dias Pires, chegou a fazer gols e a ter contrato e até valores de salário apalavrados na época de sua adolescência. Os registros são escassos mas, em um dos jogos, o menino marcou quatro gols na goleada por 8 a 2 sobre um selecionado de Ibitinga (cidade próxima a Bauru).

Mas a história traçou o seu caminho para Santos, onde o time da Vila Belmiro fez proposta irrecusável para Dondinho e a mãe Celeste.

A não permanência de Pelé no Noroeste parece nunca ter sido perdoada pela torcida da época, registra Luciano Dias Pires. Na década de 60, em um jogo contra o Santos, em Bauru, torcedores vaiaram o Rei durante quase todos os 90 minutos. Depois de marcar um gol, ele teria feito gestos provocando os torcedores locais.

O Jornalista Leonardo de Brito complementa que a primeira partida de Pelé, pelo Santos, contra o Noroeste foi em 1958, quando o Peixe sagrou-se campeão Paulista pela quarta vez. O Alvirrubro venceu diante de público numeroso no velho estádio noroestino.

“Pelé jogou muitas vezes contra o Noroeste. Meu último contato presencialmente com o eterno camisa 10 foi em 1975, quando ele cumpriu longa agenda em Bauru. Pela manhã, junto com Audálio Dantas, inaugurou a sede regional do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. E à tarde, no campo do BAC, marcou vários gols na vitória do Baquinho contra o Caçula, revivendo, 23 anos depois, a final infanto-juvenil; à noite, na Câmara Municipal, recebeu o título de Cidadão Bauruense. Participei dos três eventos, sempre colado ao Rei, causando ciumeira em muita gente”, recorda o jornalista, que foi editor de Esportes por muitos anos no JC.

Ele acrescenta que Deus perdeu a receita após criar Pelé. “É único, é eterno”.

PREFEITURA DE BAURU LAMENTA E DECRETA LUTO OFICIAL DE 3 DIAS 

Em nota, a Prefeitura de Bauru lamentou profundamente a morte de Pelé, o Rei do Futebol, que deu seus primeiros passos na carreira de jogador em nosso município, na década de 1950. A prefeita Suéllen Rosim decretou luto oficial de três dias, que será publicado em edição extra do Diário Oficial nesta quinta-feira (29).

Em material produzido pela assessoria de imprensa, a prefeitura destaca que Edson Arantes do Nascimento era natural de Três Corações/MG, onde nasceu em 23 de outubro de 1940, mas chegou ainda criança em Bauru com a família.

"Foi nos campos de futebol de Bauru que ele começou a jogar, e também onde ganhou o apelido de Pelé. Ainda muito jovem, Pelé já se destacava no futebol. Foi jogador do Bauru Atlético Clube (BAC), e chegou a ficar perto de ir para o Esporte Clube Noroeste, atuando com a camisa alvirrubra em três jogos amistosos. Mas em seguida foi para o Santos Futebol Clube, onde fez praticamente toda a sua carreira, brilhando para o futebol mundial. Conquistou a primeira Copa do Mundo com a Seleção Brasileira aos 17 anos, na Suécia-1958, e ainda foi campeão do mundo de novo no Chile-1962 e no México-1970, sendo até os dias atuais o único jogador com três títulos de Copa do Mundo. Ele participou ainda da Copa da Inglaterra-1966. Já pelo Santos, Pelé ganhou duas vezes a Libertadores, em 1962 e 1963, dois Mundiais de Clubes, nestes mesmos anos, e ainda dez títulos do Campeonato Paulista e seis títulos da Taça Brasil. Encerrou a carreira no Cosmos de Nova Iorque, nos Estados Unidos, em 1977. Marcou 1.283 gols em 1.366 jogos na carreira profissional. Pelé foi eleito o Atleta do Século 20, sendo ainda um dos nomes mais conhecidos do Brasil em todo o mundo", informa o material.

CÂMARA DE BAURU EMITE NOTA DE PESAR

"A Câmara Municipal de Bauru, por meio de seus 17 vereadores e servidores da Casa de Leis, manifesta suas condolências e externa votos de pesar pelo falecimento do ex-jogador de futebol Edson Arantes do Nascimento, o Rei Pelé, aos 82 anos, ocorrido na tarde desta quinta-feira (29/12). Ele faleceu após falência de múltiplos órgãos em decorrência do câncer de cólon, descoberto em 2021.

Pelé nasceu em 23 de outubro de 1940 na cidade de Três Corações, em Minas Gerais. Antes de completar 5 anos de idade, sua família se mudou para Bauru, onde deu os seus primeiros passos no futebol. Com 10 anos, ele fundou o seu próprio time, o 7 de Setembro, e jogou também no Ipiranguinha, time de várzea bauruense. Aos 14 anos, foi defender o Baquinho, time de garotos de até 15 anos formado pelo Bauru Atlético Clube.

Quando completou 15 anos, Pelé foi levado para jogar no Santos Futebol Clube por Waldemar de Brito, técnico do Baquinho à época e ex-jogador da seleção brasileira na Copa de 1934. No time da Vila Belmiro, o Rei do Futebol ganhou dez vezes o Campeonato Paulista, seis vezes o Campeonato Brasileiro, duas vezes a Libertadores da América e duas vezes o Mundial Interclubes. Na seleção Brasileira, Pelé foi Tricampeão mundial (1958, 1962 e 1970) e marcou 95 gols em 114 jogos. Ao todo, em sua carreira, foram 1.282 gols em 1.375 partidas.

O Rei Pelé recebeu, no dia 15 de março de 1975, o Título de Cidadão Bauruense. A honraria foi de iniciativa do vereador Sérvio Túlio Coube (UDN), através da Resolução n.º 103, de 14 de novembro de 1962, aprovada pelo plenário da Câmara Municipal de Bauru, por unanimidade, no dia 10 de novembro do mesmo ano.

Pelé foi homenageado novamente pelo Legislativo bauruense em 27 de maio de 1996 através do Decreto Legislativo n.º 246/1996, que lhe concedeu o título de Cidadão do Centenário. A matéria foi proposta pela Mesa Diretora da 26ª Legislatura (1993 - 1996), presidida à época pelo vereador Cláudio Petroni (PMDB), e assinada por todos os 21 vereadores da Casa de Leis.

Diante desta perda irreparável, nos solidarizamos com os familiares e amigos em reconhecimento à história do Rei Pelé em Bauru, no Brasil e no Mundo.

Nossos sentimentos."

PODER LEGISLATIVO DE BAURU